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Cold Mountain

16/09/2013
É muito, muito raro  ver um filme pela segunda vez, ler o mesmo livro duas vezes, por causa desse tal de desencanto, da memória da primeira vez ser tão boa que a expetativa que fica jamais é superada. Bem sei que à segunda vez reparo em coisas das quais não tinha tido consciência e isso às vezes é uma surpresa tão boa que só por isso vale a pena rever. Também sei que, dependendo do momento, da disposição, filmes e livros têm impactos diferentes, às vezes maiores, quando vistos e lidos pela segunda vez. Como já sei como vão acabar, aproveito-os mais. No entanto, exceção feita ao Eduardo Mãos de Tesoura, que vejo tantas vezes quantas forem precisas, é bem raro manter-me fiel à primeira impressão, por causa do tal do desencanto. Aconteceu até com o Sidhartha, que foi dos livros que mais me encantou. Acho que foi porque estava ansiosa por chegar à parte do rio, provavelmente a melhor do livro. Tê-lo relido a correr e ter chegado ao rio e não ter tido tanto impacto. O momento era certamente outro.
Ontem revi o Cold Mountain. Não me lembrava de nada, só da Renée Zellweger de machão, sempre de espingarda na mão, da Nicole Kidman no seu papel de sempre, a Nicole Kidman irrita-me imenso, nunca percebi o encanto dos gajos por ela, e que havia uma mortandade que me causava algum transtorno, o que era suficiente para não o rever nunca mais, a minha intenção era essa. Mas ontem acabei por pegar nele porque era trabalho de casa. Vi online, sem legendas, com sotaques que valha-me deus, e adorei. O meu momento é outro, a minha disposição também, já para não falar na consciência, na necessidade de ver e viver outras coisas, por outra perspetiva, por outra lente.  Achei a Nicole Kidman linda, vi-a de outra forma, a imagem de mocinha sem sal foi substituída por outra que ainda nem sei bem qual é, aceitar o feminino deve ser isto, e o filme mostra o feminino em todo o seu esplendor, em todas as suas facetas, até a masculina. A cena da miúda e do bebé, e do encontro dela com o Jude Law, mexeu imenso comigo, o próprio Jude Law mexeu imenso comigo, e não da forma do costume, mas de outra, que vai além daquela carinha laroca e daquele corpinho de deus grego. Por causa das aulas, reparei mais nos personagens do que em qualquer outra coisa, e adorei cada um deles, a direção de atores é excelente. Apaixonei-me, gradualmente, por cada um, adorei a dinâmica de cada dupla, a forma como se vão desenvolvendo e o que vamos descobrindo sobre cada um deles, e eles sobre si mesmos. O Jude Law farto de guerra, o outro que diz que lhe falta algo que ele tem, a coragem da juventude, o facto de ter pouco a ver com coragem e bem mais com inconsciência, o que evitou que o Jude Law se transformasse num sanguinário, o que o manteve firme. E ao mesmo tempo o desencanto em relação a ele mesmo, que acaba por matá-lo. 
A transformação dos personagens é talvez o melhor do filme. O tempo de cada um, quem aprende o quê com a vida, os fatores transformadores na vida de cada um e quem é corajoso o suficiente para deixar para trás o que quer que seja que não lhe sirva mais, apenas e só por ter ou não coragem para abraçar o que precisa de ser abraçado, evolução de consciência é isso aí. 
Além de tudo, é um filme sem pressa, o tempo de maturação é muitíssimo bem conseguido. Entre outras coisas, gostei também por isso. E se mais nada tivesse mudado, isso seria mudança suficiente.    

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