Corte e Costura

22/12/2017

O que mais me custa no processo de escrever um livro, e de o declarar pronto para revisão por uns olhos novos e emocionalmente distantes, é o de corte e costura.

É um processo demorado, chato, pouco estimulante e quase nada criativo. Leio-os tantas, tantas vezes que acabo por já nem poder vê-los.

Dou o sangue, a alma, o corpo e a cabeça por eles.

Os meus livros são o mais eu que me é possível em cada momento em que os escrevo. E há partes de mim que me custa ver materializadas num papel. Ou que me assustam, por causa da exposição.

Todos os livros, toda a arte, são autobiográficos.

Mesmo que os seus conteúdos sejam inconscientes, produto da nossa imaginação e fantasia. Que nos escudemos em personagens para nos ilibarmos da culpa, da vergonha, do medo, do julgamento.

Por serem uma parte de mim, quero que saiam o mais perfeito que conseguir. O mais bonito, poético, inspirador, engraçado e acima de tudo verdadeiro.

Por estar emocionalmente ligada a eles, nunca sei o que cortar, tenho pena de deixar bocados para trás, por todos fazerem parte de uma experiência, uma ideia, um processo.

Um encadear de emoções e de ideias

Porque gosto de tudo muito bem explicadinho, por causa da famigerada honestidade, porque quero garantir que não há erros de referência, de consistência, de português. Que não há a mínima hipótese de apontares de dedo. Porque acho piada a determinada frase. Porque me apaixono por cada símbolo. Porque nunca, nunca, consigo determinar o que é importante e o que está a mais, é dispensável.

O processo de corte e costura faz que tenha dois livros escritos e não consiga, neste momento, atirar-me a qualquer um deles.

Mas no próximo ano, pelo menos um há de sair…

Sewing has a nice way of mending up plots. As artists we can very literally reap what we sew.

Há uma loja de tecidos fabulosa, espero que ainda exista, em Campo de Ourique. Era minha intenção ir lá para cumprir este date. Mas só vou a Lisboa quando não tenho outra hipótese. E nesta altura do ano nem morta me apanham nesse stress.

Artist’s Date 353/365 – Visit a Fabric Shop (22 Dez.)

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Hatching an idea is a lot like baking bread. An idea needs time to rise

Artist’s Date 352/365 – Make something out of string (21 Dez.)

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Este sino faz parte do meu Natal desde que nasci. Costuma ter uma fita vermelha e um ramo de azevinho. E há de ter, quando mamãe quiser. É do tempo em que as coisas duravam.

Artist’s Date 351/365 – Buy Bells (20 Dez.)

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