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Corte e costura

09/06/2013

Não temos de nos encolher para caber em lugar nenhum, muito menos em quem quer que seja, quando muito apertar daqui, alargar dali, subir umas bainhas, pregar uns botões, fazer uns ajustes, para que nos assentemos na perfeição. É preciso algum desvelo, para não nos ajustarmos ao ponto de termos de permanecer encolhidos. Ao fim de um tempo encolhidos, os músculos contraem e quando isso acontece, a dor torna-se excruciante, insuportável, impedindo-nos de nos mexermos.

Por outro lado, a roupa demasiado larga também não nos favorece, esconde-nos as formas, como se nos sentíssemos culpados pelo que a natureza nos deu. É ajustá-la até que nos sirva como se tivesse sido feita por medida, a nossa medida, que é única.

O mesmo serve para os sapatos, jamais usá-los quando não nos servem como se fossem uma extensão dos nossos pés, é pôr-lhes umas palmilhas, no caso de terem alargado, ou comprar uns novos, caso nos comecem a apertar, antes mesmo de nos ferirem. As feridas nos pés impedem-nos de andar, caminhamos com demasiado cuidado, com medo que a bolha rebente. O melhor mesmo é comprar uns novos, com os quais consigamos andar sem nos desequilibrarmos, sem que nos acabem com os gémeos ou com os rins, muito menos que nos dêem cabo dos calcanhares, dos dedos ou das unhas, onde os nossos pés caibam à vontade.

Já para não falar na sensação de desconforto que todo esse encolhimento provoca, todo o nosso corpo reage, como que num instinto de sobrevivência, obrigando-nos a parar, a olhar para ele com olhos de ver até descobrirmos que parte de nós está a precisar de um cuidado especial. Além disso, as mazelas demoram a curar, dão uma trabalheira, gastamos um dinheirão em consultas para saber qual a causa, outro tanto em medicamentos para acabar com o sintoma, perdemos um tempo infinito a fazer curativos em cima de curativos, levamos semanas e semanas, meses e meses, às vezes anos, até conseguirmos curar a ferida. Quando achamos que está curada, voltamos a calçar os mesmos sapatos, a dor é maior ainda, a crosta cai, tudo aberto de novo, a dor é excruciante, o curativo terá de ser a dobrar, vai levar ainda mais tempo para sarar.

A última coisa que queremos, e de que precisamos, é não nos sentirmos confortáveis para caminhar, é sentirmo-nos mal na nossa pele. 

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  • Mariam 09/06/2013 at 16:59

    Grande alegoria. Muito bom!
    Beijo grande, sem alegoria nenhuma :-)

    • Isa 09/06/2013 at 17:18

      ;) outro igualmente grande, sem qualquer tipo de alegoria ;)

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