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Crash

02/05/2005

As crises são cíclicas. Sejam elas económicas, é perguntar ao Cavaco, ou emocionais. As económicas deixo-as para uma outra altura, talvez noutra vida, e passo já às outras. As humanas. Muito humanas.

Qualquer pessoa que pense, que não ande aqui só a ver passar os comboios, com um mínimo de ambição e gostinho pela vida sofre deste mal. Seja porque está no desemprego e tem tempo demais para pensar, normalmente no que não deve, toda a gente sabe que pensar demais faz mal, porque não tem dinheiro, porque até trabalha mas não gosta do que faz, porque ganha mal; porque não tem namorado, porque o casamento anda em crise, por um amor não correspondido, por uma relação de merda onde não há coragem para nada, porque se está de ressaca, porque as hormonas nos pregam partidas, por falta de qualquer coisa, porque vive uma vida longe da qual sonhou para si e não sabe como, ou não quer, ou não consegue, mudá-la, as crises aí estão. Ciclicamente. Para nos fazer acordar para a vida, à força.

Tal como as económicas, as das nossas cabeças não aparecem de repente. Aos poucos e poucos, sem darmos por elas, vão nascendo, crescendo até se tornarem num monstro – nesta altura já não temos como fingir que elas não existem – que toma conta de nós e continuará a tomar até os nossos amigos deixarem de nos falar e a nossa família para lá caminhar, darmos um murro na mesa e acabarmos com a coisa de uma vez. Deixamos de ser dominados para passarmos a dominar. Até lá temos de penar.

Começam com um problemazinho da treta no trabalho, depois há mais não sei quê em casa, depois estamos com um mau humor que só ao estalo, insistimos em ignorar as evidências, arranjamos umas desculpas esfarrapadas para nós mesmos e para os outros, estamos na fase das desculpas, portanto. Depois passamos à fase: deixem-me em paz, quero dormir dias seguidos e não fazer rigorosamente nada, cheios de peninha de nós próprios, auto-comiseração no topo da escala, enfim, fase ermitã. Nesta fase é aconselhável levarmos uns abanões. Na altura pensamos o pior da pessoa que se atreveu a importunar-nos na nossa dor mas depois agradecemos-lhe. Apressa a fase seguinte: enfrentar o touro pelos cornos: aparece a apatia, lá vamos nós por aí abaixo até que, depois de um dia inteiro de choradeira – fónix porque é que esta merda tem de me estar a acontecer, que mal fiz eu para merecer isto, porquê a mim – de uns quantos pontapés no ar e de uns berros valentes, ou sai a bem ou a mal, quando nos apercebemos que chegou a hora de nos darmos ao trabalho de tentar perceber o motivo, que já não nos aguentamos de mau humor, a coisa começa a melhorar. À medida que nos vamos apercebendo da raiz do problema e o vamos resolvendo – se a resolução estiver ao nosso alcance, quando não só mesmo o tempo, a nossa vontade, mais ou menos férrea, e o nosso amor-próprio acima de tudo [um bom terapeuta fará maravilhas] – o mau humor e os nervos à flor da pele vão sendo substituídos por uns sorrisos e uma energia do fazer. Uma coisa de cada vez, a cada uma que resolvemos é um pozinho a mais de estímulo. O estímulo gera força, que vai crescendo e que, finalmente, aí está para lavar e durar.

Como tenho a mania da psicologia acho sempre que há algum motivo para estar de bode amarrado. Os anos de prática tornam a coisa mais fácil. Já é automático. Porquê? Os porquês são a chave. Descobrir o porquê é meio caminho andado. Até lá o desânimo faz parte. A auto-comiseração também, ainda que no meu caso dispense as festas na cabeça e coisas do género. Saber que, se quiser e puder, tenho alguém que apenas me oiça é reconfortante. E se às vezes demoro um pouco mais para descobrir a raiz do problema, azar, problema meu porque tenho plena consciência de que enquanto não o fizer, a coisa não se resolve.

Também sei, como acredito que todos saibamos, o que fazer. Que não nos devemos deixar ir abaixo. Que não devemos perder tempo a pensar muito. Que passa. Que há, no espaço sideral ou já ali ao virar da esquina, daqui a dois dias ou daqui a 3 anos, algo de muito bom à minha espera, porque eu mereço e mais não sei quê. Pois há, sim senhor. Tem mais é que haver. É pena é que demore tanto tempo. Sim, também sei que as respostas estão em nós. Que só eu posso fazer alguma coisa por mim. Pois é. Por isso quando me dão conselhos, me querem ajudar, me dizem frases bonitas e me desejam força, é gastar latim. Não é nada que não saiba já.

E mais, quando uma pessoa se deixa, inconscientemente, acredito, chegar ao fundo é porque precisa de facto de lá chegar. Para poder tirar as conclusões que tem de tirar. É que eu acredito, esqueci-me deste pormenor, que ou as coisas se resolvem ou não nos saem da cabeça. Por mais anos que vivamos haveremos sempre de bater com os cornos no mesmo problema se andarmos uma vida inteira a fugir dele ou a pô-lo para o lado. De nós próprios vale menos ainda a pena fugir. É que connosco temos mesmo de levar até ao fim da vida, que seja da forma mais agradável que conseguirmos.
@Abr. 2005

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