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Credibilidade

03/10/2013
Papai tinha uma profissão que não lhe permitia aceitar presentes, brindes, pedir favores, sob pena de isso lhe vir a ser cobrado, nas horas mais impróprias, no local de trabalho, no exercício da sua profissão. Nunca intercedeu por filho nenhum, dizia sempre: não posso. Às vezes dava-me raiva, até, poderia ter intercedido por nós de um jeito que dificilmente lhe seria recusado. Eu calava-me e aguentava, bem como os meus irmãos, porque sempre achei a justificativa boa, ele não podia, mesmo, correr o risco de lhe virem cobrar favores depois. De ficar em dívida para com ninguém. E sabia que era isso que aconteceria, mais tarde ou mais cedo, na hora do aperto, não há pudores. 
Hoje descubro que tinha não só a ver com a elevada probabilidade de suborno, mas também com a credibilidade que ele queria e precisava de manter. Credibilidade essa que se prendia com a profissão dele, mas também com a sua identidade. Credibilidade essa que foi reconhecida pelos seus pares, que o elegeram várias vezes para os “representar”, em várias instâncias, até ao fim da carreira dele. Na profissão que exerceu exige-se, entre outras coisas, credibilidade. Que, vejo agora, tem uma relação muito estreita com dignidade. E com confiança, talvez também com lealdade, valores familiares que nos são muito caros a todos. 
É bem difícil resistir, mas é uma questão de prioridades, que se definem e que precisam de ser relembradas a cada instante. Saber o que queremos, quais os nossos objetivos, qual o exemplo que pretendemos dar. Acho que herdei isso dele, luto contra as tentações todos os dias. A dignidade pode até ser recuperável, mas a credibilidade perdida dificilmente é recuperada. 

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