Cruzes, consumismo, Europa de Leste e a vida selvagem.

01/06/2016

Quem me lê há mais tempo sabe que, de quando em vez, sou acometida de excruciantes dores nas cruzes. Já achei que fosse reumático, só me dá quando exponho o lombo a friagens, daí a associação, que fosse lombar, até chegar à conclusão de que é ciática. Que é um nervo que se contrai e fica preso e só com alongamentos volta ao sítio. Até lá, é enfrascar-me em analgésicos, desta vez só assim, normalmente, relaxantes musculares servem para dar um alívio, coisas quentes encostadas à parte que dói, restando-me apenas gemer, alongar o mais que puder e esperar que passe.

As pessoas perguntam-me se já fui ao hospital. Ir ao hospital é a última coisa que me passa pela cabeça, o que é estranho, normalmente, quando temos dores, é o que fazemos. Mas eu não curto hospitais, prefiro sofrer que nem uma condenada a ir lá dar trabalho aos senhores, incomodá-los com minudências, expor-me a todo o tipo de desgraças várias. Além disso, os hospitais estão sempre cheios de gente e eu, que em circunstâncias normais já tenho pouca paciência para pessoas, quando estou a morrer de dores, ou de fome, ou de sono, fico ainda pior, daí que me poupo, e ao mundo, a um espetáculo só ao nível do Bolhão.

Só que desta vez não dava mais para aguentar e o que me ocorreu foi: se – nunca tendo passado toda uma vida a cavar batatas no campo – estou assim, com esta idade, o que será de mim daqui a dez anos. Vou resolver isto e é agora. Vai daí, pedi o contacto de um médico em Setúbal que diz que faz milagres, que é o responsável por a minha mãe nunca mais ter tido ciática na vida e por ter conseguido que a irmã dela, depois de entrar no consultório de gatas, saísse de lá pelo próprio pé.

Na segunda feira, a gemer a cada vez que carregava na embraiagem, lá fui.

O consultório não é dos mais fashion, não tem rececionista nem nada de moderno, mas, às tantas, dei por mim a pensar que a modernidade atrapalha. Agarramo-nos à ciência para justificar o que já sabemos, recorremos a máquinas para fazer o que intuitivamente sempre soubemos fazer. Aos remédios, aos químicos, enquanto milagre da indústria, quando tudo de que precisamos podemos encontrar na natureza, de borla, mais rápido e mais eficaz.

Não desprezo nem menosprezo a ciência, claro que não, só sou contra o monopólio, o abuso do sistema, o consumismo exacerbado e fora dos seus domínios de atuação, nomeadamente na área da medicina. Estamos a lidar com a vida de seres humanos, a saúde de cada um de nós, seres únicos e individuais, com necessidades diferentes e origens distintas, cada um com a sua causa, para uma doença comum a milhões. Entendo a cultura do lucro, não entendo que se veja a indústria farmacêutica da mesma maneira que se vê a que vende calças. Há que separar remédios de calças, livros de velas, jóias ou produtos de beleza. Temos pena, não são a mesma coisa e isto de ver tudo como mercado, lucro, cliente, começa a roçar ligeiramente a esquizofrenia.

Para quê sujeitar pessoas a tratamentos tão violentos quanto a quimioterapia, que mata células cancerígenas e todas as outras, quando podemos administrar bicarbonato de sódio, a 60 cêntimos o pacote, e resolver o problema, sem danos de maior, por exemplo…

Este médico, polaco e crente em Deus, com meia dúzia de apertos nas costas, resolveu-me o problema que, de acordo com o método de um médico da medicina tradicional, levaria a uma ou duas operações, internamentos em hospitais e uma fortuna em remédios. Não sou contra os remédios, mas sou contra prescrições para disfarçar sintomas sem ir à causa, simplesmente porque não resolvem o problema, apenas o adiam, e porque me sai caríssimo.

Este médico, polaco, velhote, bonito, enorme, de cara doce e corpo de lutador de qualquer coisa, com ar de brutamontes e mãos de princesa, devolveu-me os dois centímetros que tinha perdido da perna esquerda para a direita, com meia dúzia de apertos que me estalaram vértebras e me deram uma vontade de rir tremenda. Para além de ciática, descobriu-me duas hérnias, uma de cada lado, ainda não me refiz do choque. Diz que da ciática saio curada num dia, para as hérnias são precisas mais uma ou duas consultas. Sem medicamentos, pomadas, nada, só uma dúzia de agulhas e meia de apertos valentes. Queimou-me um nervo na orelha para acabar com a ciática e a verdade é que a minha anca direita já não está a apontar para sul e a cabeça para norte. Fico feliz por descobrir que afinal não tenho uma perna mais curta do que a outra e quero lá saber se o consultório cheira um bocado a canos e parece que estamos a entrar numa clínica de práticas de medicina ilegais da Europa de Leste. É natural, a preocupação dele não é enriquecer à custa das maleitas alheias, é curá-las, foi esse o juramento que fez, é esse o compromisso que assumiu. E passa recibos. Está dentro do sistema mas não se vendeu ao dito. A sua liberdade, os seus valores, falam mais alto do que tudo o que o dinheiro possa comprar.

O dinheiro, ao contrário do que possa parecer, prende, em vez de libertar. Serve para, na grande maioria das vezes, alimentar caprichos, em vez de nos satisfazer verdadeiramente. Sou burguesinha, gosto de conforto, de umas roupinhas jeitosas, de comprar todos os livros que me apetecer, mas não acumulo, nada, zero. O meu desporto preferido, inclusive, é livrar-me de coisas, sou de um desprendimento raro, para mulher, urbana, moderna e jovem, de dores nas cruzes, mas jovem.

Talvez sejam apenas reflexos condicionados, foi assim que se convencionou, é este o método no ocidente. Mas os métodos, os procedimentos, os hábitos, os meios também se mudam, sempre que as nossas crenças estão em jogo e os nossos valores se encontram ameaçados.

Não nego a competência dos médicos tradicionais, mas faz-me imensa impressão chegar a um consultório, dizer três frases, responder a três perguntas e sair de lá com uma lista de remédios para comprar que muito provavelmente nem sequer vou tomar porque me vou esquecer.

Não é mania da perseguição, teoria da conspiração, é questionamento e essa capacidade, enquanto for viva e não estiver internada numa clínica, numa camisa de forças a levar choques elétricos na cabeça e a babar-me para uma almofada, ninguém me tira.

  • Roberta de Felippe 02/06/2016 at 05:54

    Diabética e transplantada renal que sou, sei bem como é um entra-e-sai de hospitais. =/

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