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De coração

20/06/2012
Uma vez um amigo muito, mas mesmo muito querido foi alvo de uma sacanagem séria por parte de alguém que lhe era muito, mas mesmo muito próximo. A mulher dele perguntou-lhe, quase indignada, porque é que ele não ia falar com quem o sacaneou. Que não pode ser e tal. Na época, ele respondeu: pra quê? Para lhe mostrar mais uma vez a situação miserável em que ela vive? Para a lembrar da vida miserável que leva? 
O meu queridíssimo amigo, para além de ter pago o preço dessa sacanagem, e não foi pouco, está certíssimo. E, ao que sei, não voltou a cair noutra, porque tem isso também… As sacanagens vêm de todos os lados, inclusive dos que nos estão próximos. Cada um lida com a vida como sabe e pode e há imensa gente que se sente no direito de dizer as coisas mais absurdas, de mostrar ao outro que sabe o que ele lhe fez, como se o próprio não soubesse, que se diz frontal e direta, que bate no peito com orgulho por ser capaz de falar “umas verdades” a este e àquele. 
Só que as pessoas não mudam, nunca, e não é porque lhes dizemos que elas são umas filhasdaputa que elas vão deixar de ser. Não resolve, não adianta, apenas adia o inadiável, a questão central: o que  vou fazer com isto? O que vou fazer comigo em relação a isto? 
Durante muito tempo, e muitas vezes, larguei, abandonei, deixei a marinar, não respondi, não atendi telefones, não procurei algumas pessoas. Por saber isso mesmo, que elas não mudam, e por saber que de nada adiantaria confrontar, argumentar ad nauseam, com gente que a única coisa que quer é ofender, magoar, pôr-se em biquinhos dos pés, cantar de galo, defender e justificar as suas próprias fragilidades, usando as que acha que são dos outros, mas que na verdade são só suas. 
Confrontei-me com isso, com o facto de os padrões se repetirem, de as questões serem as mesmas, uma e outra vez. Achei que não tinha mais que aturar isso, que de alguma forma também não podia ficar com isso para mim. O que fazer com isso? O que aguento fazer com isso? 
Cheguei à brilhante conclusão que não sou pessoa, não quero ser esse tipo de gente, que relembra ao outro a miserável condição em que vive, muito menos aguento discussões, na verdade não passa de punhetagem, e punhetagem por punhetagem, ao menos que me dê prazer, o que não é o caso, que não levam a lado nenhum. No primeiro caso seria crueldade, no segundo seria ego, persona e sombra, todos à porrada pra ver quem ganha. Cheguei à brilhante conclusão que o melhor que faço é deixar o self tomar conta da situação, que o melhor que faço é isso mesmo, ir largando, largando, largando, até que o que quer que seja que me prende doentiamente àquela pessoa se dilua e se extinga, para sempre, sem volta. É o meu jeito e é do nosso jeito que temos de resolver as coisas, não do jeito que dá jeito a seja quem for, simples assim.
Não quero nem vou representar esse papel, a vida mostra-nos o que insistimos em não querer ver em relação a nós mesmos, de uma forma ou de outra. A vida põe-nos as pessoas certas no caminho, para o bem e para o mal, mas as certas. Cabe-me a mim descobrir porquê, que papel cabe a quem na minha vida, que papel represento na vida de quem. E seguir vivendo, certa de que só quero gente à minha volta que me queira, de coração. 

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  • Fuschia 20/06/2012 at 09:15

    Eu também adoptei essa postura mas não estou convencida que funcione. Quando fico a remoer no que não disse ou quando as situações consequentes se vão embrulhando cada vez mais por aquilo que não foi dito, arrependo-me e fico a remoer.

    Tu falas de grandes sacanagens, mas essas são as mais fáceis de lidar. Magoam, mas são claras como água. As mais difíceis de lidar são as pequeninas, as pequeninas coisas que os outros fazem e que magoam. E que são tão pequeninas que por vezes fico na dúvida se foi mesmo sacanagem, foi distracção, foi sem querer ou se é impressão minha. E que são tão pequeninas que nem vale a pena falar disso, passa-se à frente. Mas depois há mais uma e outra e outra..e vai embrulhando, embrulhando. Até que um dia aquilo que não foi dito já quase que ganhou pernas e anda, mas já nem me lembro exactamente das situações em que surgiu.

    Por outro lado tento pensar, quantas vezes possa ter magoado alguém por distracção, ou simplesmente porque não me apetecia fazer o esforço? De certeza que pelo menos uma.

    • Isa 20/06/2012 at 14:54

      uma coisa são momentos, situações pontuais, outra são posturas na vida, essas repetem-se e repetem-se e repetem-se.

      qd alguem nos magoa e nós magoamos, nós vemos, na cara do outro, na hora…

  • Nervosinha 20/06/2012 at 12:10

    Ainda não consigo sempre ser assim mas concordo que é o melhor para se ser. Excelente texto.

    • Isa 20/06/2012 at 16:25

      acho que só conseguimos quando muita coisa deixa de nos afetar e isso só se consegue quando resolvemos muita coisa nossa, na nossa cabeça e no nosso coraçãozinho ;)
      valeu.

  • Clara 20/06/2012 at 13:08

    tens dois temas aqui: um é o de calar e seguir, não ligando mais a quem falhou – essa é a forma que uso sempre e está profundamente errada – não dou hipótese à pessoa que falhou de melhorar porque não lhe apontei as falhas.

    acho que o correcto é dizer assertivamente a quem nos fez mal que o fez, como fez e o que isso significa para nós.

    o meu problema é que não consigo dizer assertivamente por isso oscilo entre a passividade (virar as costas sem dizer nada) e a agressividade (quando estoiro, e muitas vezes estoiro para a pessoa errada).

    • Isa 20/06/2012 at 14:58

      repito o que respondi à Fuschia quanto às tuas duas primeiras frases.

      quanto à 3ª, somos duas, apesar de isso dependenr de quem tenho do outro lado, se é alguem interessado em ouvir ou se é alguem apenas preocupado em salvar a pele. e é aí que a coisa pega. a gd maioria das pessoas está apenas interessada em salvar a pele, a nao ser que haja amor na relação, e não apenas poder…

    • Fuschia 20/06/2012 at 15:47

      Ah é tão isso! A uns perdoo e a outros rebento. E por saber que rebento e me sentir culpada por isso, é que me calo em tantas outras.

    • Isa 20/06/2012 at 15:55

      Pois é, mas a questão que me ponho é exatamente essa: vale a pena o sentimento que vem depois do rebentar? é aí que tb pega. pq, meu, eu não sei se mereço isso, se mereço ficar a sentir-me pior pq joguei o jogo da destruição do outro. o meu jogo, eu quero, que seja de construção, não de destruição. é aqui que a gente escolhe, eu acho… e obviamente essa construção passa por um caminho de pedras, mas esse caminho é só nosso, passamos por cima delas ou pisamo-las, o que quer que seja que faça parte da equação, mas de uma coisa sei, não preciso que ng me atire pedras à cabeça…

    • Fuschia 20/06/2012 at 16:10

      Mas como dizia a Clara, se disseres assertivamente “você é uma grandessíssima besta e a partir de agora isto entre nós processa-se assim: a, b, c”, não estarás a ser mais construtiva do que a pessoa que se cala? Podes não mudar a pessoa, mas não sabes se não plantas uma semente que ela vá buscar na altura certa. É que para mim é mais difícil encarar uma situação que me vai gerar raiva sem rebentar, do que afastar. Afastar e ignorar é-me muito mais fácil, mas também não acho que resolva as coisas e acaba por ser uma defesa nossa.

    • Isa 20/06/2012 at 16:20

      Bom, se disseres isso assim é óbvio que vai dar merda e discussão. Ng aceita que lhe digam uma coisa dessas e mais as relações funcionam, ou deveriam funcionar, sem regras. ou tu aceitas a bestialidade da pessoa ou não aceitas. eu nao aceito pq sou um ser mt sensível :D

      qt ao afastar, e ao resolver, repito o que disse acima: a gd maioria não quer resolver, quer pôr-se em biquinhos dos pés, eu sou melhor que tu e tal. qd a gente quer resolver, mesmo, resolve ;) e jamais a gritar e a impor o que quer que seja aos outros. na minha visão das coisas, o amor não precisa disso, quem precisa disso é quem está nas relações pelo poder…

    • Clara 20/06/2012 at 20:30

      eu quando tenho amor (amigos, família, porque nem vou falar de relações amorosas – nisso sou tão disfuncional que nem vale a pena) calo-me sempre, sempre, com o medo que tenho de rebentar. talvez porque toda a minha infância/adolescência me tenham dito que era bruta e cruel e eu tenha medo de ser. o que é estúpido, porque as poucas vezes que discuti com amigos as coisas acabaram por ficar mais esclarecidas e o ambiente mais aliviado.

      mas, lá está, mesmo as más pessoas merecem que se lhes diga isso na cara (não serei eu a fazê-lo mas tenho pena).

    • Isa 21/06/2012 at 03:12

      Não poria a coisa nas más vs boas pessoas…

      e tipos quem não merece sou eu ;))

  • Anonymous 20/06/2012 at 16:55

    Gostei muito deste texto. Boa análise.
    CC

  • Ana 20/06/2012 at 20:31

    Acho que tenho em mim as duas versões. Quando são pessoas que eu acho que (ainda) valem a pena, seja pelo facto das falhas serem pontuais, seja por mostrarem interesse em ouvir, eu vou lá e encaro a coisa. Nem sempre com a calma que seria devida, é um facto – e aqui falho eu, que fervo em pouca água – mas tento fazer com que as coisas sejam ultrapassadas.
    Outras pessoas e situações existem em que nem me dou ao trabalho, viro costas e vou à minha vidinha, onde elas, obviamente, não terão mais lugar.

    • Isa 21/06/2012 at 03:12

      Talvez estejamos todos a falar do mesmo :D

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