Deep Down and Beyond

10/08/2016

Não consigo evitar os porquês, apesar das angustias e dos dissabores, a ilusória sensação de controlo tem-me satisfeito o suficiente para querer abdicar deles. Tornaram-se quase automáticos. Quando dou por mim, já fiz a pergunta, já lancei o mote para o meu inconsciente, que, de tão em casa, rapidamente me manda a resposta. O meu ego não gosta, vai ter de se aguentar.

Uma coisa é o Jung e a análise que me aplacam as dúvidas existências e me satisfazem a curiosidade em relação a um dos temas da minha vida, o modo como funciona a cabeça das pessoas, o que as influencia e as move, os ancestrais e a descendência, o que passa adiante, o que se resolve, o que fica travado. O como chegaram até aqui, o que faz delas pessoas decentes, apesar de tudo. O potencial escondido, de que têm medo.

Outra são os artigos que leio para justificar ou entender determinado comportamento. Foi disso que me fartei.

A racionalização e as explicações, as justificações, as teorias e as causa-efeito deixam-nos preguiçosos, condicionam-nos, impedem-nos de ir mais fundo e além. É lá que quero ir, além a vitimização, da condição de refém, em que ficamos sempre que atribuímos o nosso estádio a algo ou a alguém, às condicionantes familiares e nacionais, coletivas e universais. Que nos confortam nessa nossa agora inesgotável capacidade de aceitação, mas apenas se formos além do complexo, da projeção. Se as virmos como nossas, com outros olhos, mais compassivos, mais generosos, que veem como uma característica, em vez de um defeito a esconder, até corrigir.

Muito me tem irritado quem apregoa que quer melhorar enquanto pessoa, ser humano. Eu sou ótimo ser humano, enquanto não me vierem dizer o que define um ser humano, momento em que me torno o pior ser humano do mundo, ao tentar fazer de mim um ser humano melhor. Ser humano é ter defeitos, é estar vivo, é fazer o melhor que se pode com o que se tem, obrigada, J. E sim é escolher o lado solar, mas não nos envergonharmos do lado lunar, muito menos fingir que não existe. É ver além das máscaras da persona e das sombras do ego. E só conhecendo as nossas, reconhecendo-as e vendo além delas, conseguimos fazê-lo em relação aos outros. É a cagação de sentença, a superioridade moral, a condescendênciazinha, mas, acima de tudo, a falta de empatia, de compaixão, de sensibilidade, que me tocam. É a castração da possibilidade do ser que me deixa fora de mim.

Os artigos online, de revista, são generalistas, impessoais, teóricos. Contra tudo o que a psicologia decente defende: indivíduo a indivíduo. São os que te dizem que se tens um ataque de fúria porque estás no trânsito há horas é porque és control freak, quando na verdade, se pensares duas vezes, é porque te limita a liberdade de andar, te oprime, ameaça a tua sobrevivência, se prezas e privilegias a liberdade de movimento e de pensamento acima de todas as coisas, independentemente de haver um complexo associado. Há sempre um complexo associado a um ataque de fúria, apesar de este ser muitas vezes usado, lá está, para controlar e manipular os demais. São os mesmos que te dizem que as pessoas ansiosas também são obcecadas por controlo e é daí, e só daí, que vem a ansiedade. Quando, no teu caso específico, percebes que vem sempre que estás a fazer algo que não queres verdadeiramente e apenas o fazes por obrigação moral, social, familiar. Ou porque estás com o corpo num lugar e a cabeça noutro. Que te acusam de ser um people pleaser quando na verdade do que não gostas é de conflitos, de discutir, de argumentar, de ter de responder até o outro se cansar de tentar controlar-te, encaixar-te numa categoria, na ideia que faz de ti, e de si, para conseguir seguir com a sua vidinha.

Quero ir mais fundo e além, chegar lá e aceitar. Parar de querer o que não tenho, não é meu, não me pertence nem me faz falta, para desenvolver o que já é meu, já tenho, me serve e me completa. Sem precisar que um teórico me venha dar explicações generalizadas a inquietações tão particulares.

Talvez de que não precise é de explicações, racionalizações, de tentar convencer ninguém, muito menos provar o que quer que seja a quem quer que seja. A ciência, como a racionalização, acabam com a magia e já se sabe a que corresponde uma vida sem magia, “um tédio que a gente nem crê”.

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