Livre

Depois do sinal

21/07/2016

Ontem, na minha missa semanal de quarta-feira, o Ivan Martins remetia-me para um artigo da Piaui sobre o tempo de espera para resposta. Eu, que nem sabia que tal coisa existia, mas que sofro de ansiedade generalizada, curiosa, fui ler. E vim de lá entediada de morte.

Nunca fui de joguinhos nas relações, sejam elas de que tipo forem. Agora, depois de velha, muito menos. Se há coisa que os 40s nos trazem é a certeza de que não há tempo a perder.

Não me relaciono com qualquer um, o meu círculo é pequeno apesar de conhecer imensa gente. Relaciono-me de forma intensa e profunda, não há lugar a vazios. Por isso, não é qualquer um que serve e para os outros não tenho paciência. Não perco o meu tempo com mais ou menos, talvez e vamos ver se dá.

Por isso me surpreendeu todo um tratado em relação ao tempo de resposta. Não é novo, todas as pessoas que se movem por poder, ou o têm como princípio vital, gostam de joguinhos. Mas o que li vai além disso, chega a ser esquizofrénico.

Para começo de conversa, e ainda que sofra, felizmente, como toda a gente, de alguma ansiedade quando não me respondem, não acho normal que se exija uma resposta imediata, apesar de eu, quase sempre, as dar. E quando não dou é porque não posso, não vi, não consigo, não tenho tempo, não sei o que dizer. Não adianta pressionar, quanto mais pressão, mais eu fico com ódio e mais bruta sou. Na grande maioria das vezes, quero é livrar-me dessa incumbência e rápido. Posto isto, podemos então passar adiante.

Falavam eles na Piaui sobre “uma questão que provoca muita discussão é o tempo que devemos levar a responder.” Sério, há gente que perde minutos e horas do seu precioso dia, que nunca mais volta, a pensar nisto. O dobro do tempo, dizem os sábios. Se demoram 5 minutos para me responder, então eu demoro 10. Gente, o mais provável é que ao fim de 5 minutos eu nunca mais me lembrasse de responder e só no dia seguinte me ocorresse que deixei alguém pendurado. Sim, eu sei que esta questão se prende mais quando há expectativas emocionais, para usar as palavras do Ivan, mas que jamais se menospreze a minha capacidade mental de voar para paraísos distantes e só voltar daí a umas horas, ou dias…

Dizem que é para manter o controlo da situação e dar ideia de que se está mais ocupado do que o seu interlocutor. Sério… Dar ideia, manter o controlo da situação… Outros acham, dizem eles, que basta esperar alguns minutos para mostrar ao interlocutor que fazemos algo mais com a nossa vida do que olhar para o ecrã do telemóvel. Como é que explico isto… As pessoas minimamente sãs não olham para o ecrã do telemóvel 24h por dia, mas, se ele está ao ali ao lado e acende uma luz – e as únicas notificações que tenho ativas são as do messenger, do watsapp e dos sms, porque tudo o resto, lá está, me perturba, é demais, não aguentaria um telefone a apitar e a acender a cada segundo – acho natural olhar para ele. Quando não quero ou não posso, viro-o para baixo ou guardo-o. É simples, não preciso de estratagemas para mostrar ao outro que estou ocupada. Aliás, eu quero lá saber da opinião do outro, seja ele quem for, em relação a um tempo que nem sequer conhece, o meu. E na minha visão inocente da coisa faz-me muito mais sentido mostrar que me apetece, que gosto, que quero, do que mostrar que sou muito ocupada, que tenho uma vida e tal. Se lhe passar pela cabeça o contrário, que estou à mercê e dependente de sua excelência para viver, o problema não é certamente meu…

A lista continua, percentagens, minutos, até haver alguém, cá dos meus e finalmente, que diz que “estava de saco cheio desse jogo todo e receber respostas rápidas sem qualquer cálculo é um alívio e uma demonstração de confiança”. Mas é preciso todo um tratado para isto, meu deus?

Até que se fala no mecanismo de recompensa, que faz sentido. Se eu não recebo uma resposta pronta, imediata, o meu mecanismo de recompensa fica afetado e isso causa ansiedade ao ponto da obsessão. É verdade, mas a questão é: quanto tempo dura essa obsessão? Porque uma coisa é durar umas horas, outra é durar umas semanas. E se dura umas semanas, sério, com o problema do outro que não se dá ao trabalho de responder posso eu bem, tenho é de cuidar da minha cabeça, que me dá bem mais motivos de preocupação neste momento…

Engraçado é ver a coisa dos dois lados, quem espera acha sempre que disse ou fez algo de errado e quem demora, na grande maioria das vezes, vamos acreditar nisso, que o mundo não é esquizofrénico, não viu, está a dormir, a passar por um momento mau, num stress qualquer, impedido mental ou fisicamente de responder. E está no seu pleno direito. Por muito que nos custe aceitar, as prioridades do outro são as prioridades do outro. Como as nossas são as nossas. E primeiro estamos nós. Muitas vezes, inclusive, estamos até a protegê-lo, a proteger-nos a ambos. Falo por mim, se eu vi a mensagem e não respondi, acredite, é melhor para si…

O argumento para uma não resposta imediata que “produz incerteza e por isso pode levar a uma poderosa atração romântica” não me convence. Porque se o jogo é esse, eu posso até atrair-me, mas se a coisa não desenvolve, não só perco a paciência como me irrito profundamente. E aí acabou-se a festa. “Mesmo que quanto mais pense em alguém, mais aumente a presença da pessoa na minha cabeça”. Mesmo assim.

“Sempre consideramos mais desejável o que parece menos disponível”. É certo, claro que sim, mas não sustenta relação nenhuma e eu não perco o meu tempo com a possibilidade de relação nenhuma.

De resto, acrescento: o que é feito da espontaneidade? Onde fica a surpresa, a reação imediata, o impulso, a autenticidade, a genuinidade, até a cumplicidade, se tudo é programado, controlado, medido, previamente estabelecido? Um tédio que a gente nem crê, é isso, deus me livre.

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  • Renata 21/07/2016 at 19:42

    Adorei. E me identifiquei, não faço cálculos… respondo quando vejo, quando posso. E se a outra pessoa faz cálculos com relação a mim, também não se dará bem, porque sou meio “na lata”. Aí, imagina, eu respondo o que acho e a outra pessoa fica tentando descobrir o que eu queria dizer, quando na verdade eu já o tinha dito?
    Desentendimentos eternos…

    • Isa 21/07/2016 at 19:47

      Ai credo, meu, juro, não tenho paciência, tenho uma preguiça imensa para tudo isso, gosto de usar a inteligência que deus me deu para outros fins mais produtivos e, atrevo-me a dizer, mais dignos, sinceramente… ;) e acho que o jogo da conquista não implica esse stress todo, se é pra me stressar, meu, vou para o trânsito que aí é garantido :D Bjo

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