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Descrição* III

20/08/2010

Ela é mais ou menos da minha altura, talvez um pouco mais alta. Não me recordo se o que calçava justificava os centímetros a mais. Mas o que me atraiu nela foi o rosto, resultado de misturas entre os ancestrais. Ela poderia ser índia, indiana, ou de outro qualquer ponto da Ásia aonde não se usem os olhos puxados. Os seus olhos são grandes, a boca de lábios carnudos e o seu cabelo é liso e preto, numa trança que lhe caía pelo ombro direito. Pernas altas e esguias e ou as calças jeans, justas e de bom corte, lhe caíam que nem uma luva ou ela não tinha problemas de celulite. Poderia ser modelo, tinha corpo e idade pra isso.

Era uma bela figura feminina, sem casaco e com frio. Não sei se tinha noção da sua aparência, sei que não fui só eu que reparei nela.

Um rapaz sentado nos bancos azuis, do ónibus parado bem à nossa frente, nós estávamos na calçada à espera da nossa vez, não tirava os olhos dela, percorrendo-lhe o corpo com o olhar, de alto abaixo, sem a mínima piedade, sem o mínimo pudor.

Estas coisas incomodam as mulheres, ou pelo menos a mim incomodam e a ela também, que não parecia estar nada à vontade, desviando-se como pôde da janela do busão e dos olhos escuros que a observavam, com avidez.

Estas coisas incomodam as mulheres, acredito que também incomodem alguns homens. Segundo um amigo, alguns têm de fazer um esforço brutal para nos olharem nos olhos enquanto falamos, quando a vontade é fixarem-se no decote e não mais de lá sair. Foi tão veemente no seu discurso que quase tive pena dele.

Fui à minha vidinha, o meu busão chegou entretanto e ela lá ficou encolhida pelo frio, na sua blusinha beije, que lhe ficava a matar, sem perder a pose, à mercê dos olhares mais impiedosos.

*Exercícios do módulo: Fundamentos Narrativos I

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