Desligar o cérebro

29/03/2018

Na penúltima aula de dança da vida, havia percebido com toda a certeza que não tenho grandes problemas em me assumir como líder. Por outro lado, e na mesma proporção, percebi com a maior das clarezas que o meu problema é com exposição.

A dança permite desligar 

À partida, dançar à frente de toda a gente seria coisa que me faria largar a correr porta fora. No entanto, a grande vantagem da Biodanza em relação a outras práticas é que ninguém está a olhar, está toda a gente na sua viagem particular.

E nos raros casos em que está, não nos apercebemos…

O espaço de intimidade já foi criado. E a capacidade de desligar já está enraizada.

Na última aula, percebi que uma qualidade que me atribuem com demasiada frequência, e que não reconheço, porque conheço o outro lado, a minha verdadeira natureza, mas que toda a gente vê, menos eu…, a de guerreira, é de facto e de direito uma característica minha.

E gostei de a ver enfrentar o mundo e vestir a pele de tigre.

Só que como não a reconheço nem aceito, tenho-a má conotada emocionalmente, está na sombra. Daí que, quando sai, é nessa proporção. Não gosto. Deixa-me com ressacas morais monstruosas e não há meio de ser civilizada, de falar de outra maneira, noutro tom.

Se tento calá-la, ainda é pior.

A Biodanza não nos dá nada. Apenas nos mostra o que já é nosso. E acolhe… Essa é a grande diferença. Ali é o espaço para expressar essa guerreira, assumi-la e a integrá-la, para que possa usá-la a meu favor e não contra mim.

A sombra joga sempre contra, até que a assumamos como parte de nós.

Vezes houve em que pensei: hoje, não me arrancas daqui, da melancolia, da tristeza. Ao fim da quarta música, já me esqueci de tudo e já sou outra pessoa. Para além de nos fazer sentir em casa, enturmados, pertencentes, acolhidos e aceites…

Tem, também e acima de tudo, a capacidade de nos desligar…

Porque opera a esse nível, o da desconexão em relação ao mundo lá fora, ao racional, à cabeça. Para nos conectar com o instinto, que nos mantém vivos e do qual nos afastámos. Com a emoção, que nos permite cuidar-nos e dos outros, no fundo, mais uma forma de sobrevivência. Com o todo de nós, sem o exclusivo da cabeça, que tantas vezes nos cega para tudo o resto.

O que permite um distanciamento por parte do ego, que, descansadinho e distraído, abre uma fresta para tudo o que reprimiu a vida inteira. Felizmente, a Biodanza é biocêntrica e por isso estamos seguros.

Já me vi de fora, no sentido em que os meus gestos, movimentos e alguns urros, me surpreenderam. E se não os tivesse sentido em cada poro, cada milímetro de pele, cada arrepio na nuca, jamais diria que era eu.

O mesmo acontece com imensa gente

Que se surpreende quando alguém lhes dá o retorno das suas danças. Não se reconhecem, mas o sorriso de felicidade não engana. Já o sentiram na pele. Não têm mais como dizer que não é delas.

Hoje é quinta-feira, ‘bora lá? :)

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