Diários

13/07/2021

Tenho pena de não ter escrito diários, relatos, de viagens, dos dias de tédio, tormenta e paixões tórridas. Fotografias não chegam, por não dizerem tudo…

E de não ter guardado todas as cartas, apenas postais.

Diários, cartas e postais são excelentes repositórios de memórias, que tendem a confundir-se umas com as outras e com a forma como percepcionamos acontecimentos, momentos, sensações.

Diários, cartas e postais, muito mais do que objetos que trouxemos de viagens ou lugares especiais, ou fotografias, nas quais não pusemos datas muito menos identificámos os lugares de onde as tirámos, às vezes nem dos nomes que lhes escrevemos nas costas nos lembramos, mesmo que tenhamos uma cara para lhes associar, são o instrumento de trabalho de qualquer escritor que se preze.

Ainda que nos sirvamos da imaginação, da perceção, da sensação, das palavras, que manejamos a nosso bel-prazer, para compor uma história.

Ando obcecada com a verdade, quero saber a verdade sobre a minha história, esta em particular, que ando a contar há ano e pouco. Uma história cheia de devaneios, ilusões, fantasias, delírios, e pouquíssimos factos. Não por não querê-los, mas por não me lembrar. Não me lembro da ordem dos acontecimentos passados dois meses, o que fará passados 20 anos. Agarrar-me a factos sempre me protegeu, a verdade objetiva está nos factos, mesmo que não lhes conheçamos as razões. Contra factos, não há argumentos, subjetividade, perceção, vontade, projeção, ilusão.

Arrependo-me de não ter escrito diários.

E desta minha impulsividade furiosa, que faz que deite fora documentos da minha história. Preciosos, que agora me ajudariam a pôr a cabeça em ordem e a dar tino a algumas emoções. Uma impulsividade de quem quer deter algum controlo sobre a vida, as emoções e o poder que estas têm sobre mim.

Para não voltar a sonhar.

O problema de deitar fora documentos da minha história é precisamente voltar a sonhar com o que e quem não devia. Numa tentativa de não cair em tentação, elimino vestígios do passado para não recordar, não voltar a sofrer, a enlouquecer por não saber, não entender, não viver, não esquecer.

O que acontece é precisamente o que quero evitar.

Como não me lembro, volto a cair no mesmo erro, na mesma conversa, nos mesmos velhos truques e armadilhas, orquestrados pelo meu próprio cérebro.

Num raro momento de discernimento, guardei cópias do que escrevi e tive o rasgo de inteligência de não as juntar a outras memórias, ou teriam tido o mesmo fim, o lixo. São esses bocados de memórias escritos em papéis aos quadradinhos, e cópias de cartas que enviei há mais de 20 anos, que agora me ajudam a pôr os pontos nos is, a conseguir enquadrar o tempo cronológico no mental e na perceção que tive de acontecimentos e das memórias que deles guardei. Era um tempo em que, achava eu, escrevia pouco e nada, apenas vomitava impropérios para conseguir ter alguma paz na cabeça e esperança no coração. Leio relatos em que digo que sim, escrevi imenso, no Verão de 97, mas não tenho quais quer registos físicos, exceto meia dúzia de páginas A4.

Queria que os olhos de quase meio século de hoje, ao ler o que as mãos de um quarto de século escreveram, fossem sábios o suficiente para não entrar em delírios românticos e ganhassem juízo. Quando me dei conta de que nem os olhos do ano passado o conseguem, assemelhando-se mais aos olhos sonhadores, esperançosos, puros, de uma miúda de um quarto de século do que aos de uma suposta sábia de meio século.

Como diria meu santo pai, não tenho juízo nenhum…

Ando a preparar-me para o meio século há uns três anos ou mais. Contente por ter uma idade que começa com um 4. Essa década em que ainda podemos permitir-nos iludirmo-nos um bocadinho em relação à vida e a nós mesmos. Tem sido um horror. São-me sempre muito dolorosos os anos que antecedem a entrada nas décadas. Estes conseguem ter sido os piores de todos. Quando chego lá, passa.

Já só faltam três meses e pouco…
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