Livre

Digestão rápida

20/03/2016

Adoro a novidade, preciso dela constantemente, os dias iguais, as repetições, o tudo no sítio entediam-me. No entanto, preciso de um tempo para me atirar de cabeça. Há em mim um período de observação, quando a novidade é boa, é o tempo de que preciso para me permitir entrar de corpo e alma no que quer que seja, temas, grupos, situações, ambientes. É o tempo de preparação para o vínculo. As novidades são bem-vindas, mas devagar. Preciso exatamente desse mesmo tempo para me despedir, para largar, para me desvincular. Por isso me permito estar em situações, lugares, pessoas, o tempo que for preciso, tempo esse que me parece sempre demais. E que acaba por se revelar o tempo certo, o que me permite não voltar para trás, nunca, nunca mais. Às vezes, esse tempo presta-se a abusos. É o tempo que as pessoas precisam para impor limites, eu preciso desse tempo para decidir que, por mais limites que ponha, continuarão a ser ultrapassados. Os limites da pertença condicionada, do amor interesseiro, do primeiro ato de crueldade. O tempo das coisas que não se perdoam, que não passam, que não têm volta. É o tempo que diz que o tempo acabou. E quando assim é, é para sempre, para nunca mais, é o tempo que me protege, que me dá a sensação de finitude, de morte, é o tempo que me permite renascer, mais forte, mais segura, mais certa de mim, o tempo que dita o fim de quem fui e me permite ser quem sou, mais próxima da minha essência, do que quero, do que me serve, do que não me faz perder mais tempo. E nisso sou boa, a acabar com tudo, à machadada, certeira. Sou arraçada de Peter Pan em muita coisa, há muita responsabilidade que evito, que não quero para mim, que não me apetece assumir. Mas assumo, dou o primeiro passo e o último, o definitivo, faço o corte radical, aquele que é para nunca mais, com a assertividade que me falta para tudo o resto. Não me sinto minimamente culpada, afinal, apenas respondo ao que já foi feito mas não assumido, para evitar culpas, pesos de consciência, para pôr a responsabilidade nas costas do outro, quando tudo se fez para que ele se fosse embora, só faltou chutá-lo da porta pra fora. Era o que faltava, eu mesma abro a porta, e a fecho, sem dizer adeus. E nunca, nunca mais serei a mesma, haja ou não contacto visual, tenha ou não de permanecer nos mesmos lugares, de conviver nos mesmos espaços. Sou outra pessoa, fria, indiferente, distante, mas inteira, convicta, segura, acima de tudo, desamarrada, e completamente livre.

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