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Distorção 2

11/07/2009

Depois de ver dois jogos de futebol por dia, encarar 22 pares de pernas sem pêlo, depois de ver filmes e filmes de mulheres dos 20 aos 70 que têm todas a mesma cara, a gente vai à praia e pensa duas vezes se a evolução da espécie não é apenas um produto da nossa imaginação, olha em volta e certifica-se bem de que não chegou ao neandertal. A gente vê o Chega de saudade e fica chocada com as rugas da Cassia Kiss e da Betty Faria (que pararam de pôr botox durante uns tempos pra poderem fazer o filme). Como se já não bastasse a pressão das modelos magrelas por conta de cheirarem cocaína e se alimentarem de alfaces e tomates, e de terem 20 anos, há a pressão da eterna juventude, patrocinada pelo botox e outras cositas más.

Como se a gente não tivesse mais nada que aceitar, como se já não bastasse termos de nos aceitar, a nós e aos outros, ainda temos esta pressão de olhar pró espelho e ver um corpo que se transforma por conta própria sem nos pedir autorização. De olhar para o espelho e ver que as rugas se vincam a cada dia. E não há cremes que nos valham, mas a pressão, a nossa, que já nos chega bem, não pára. E a gente não aceita, e resolve, fácil, fácil, é só marcar e pagar. E a gente olha ao espelho e aceita, claro que aceita, as marcas estão lá mas a gente não as vê, sente-as mas não as vê.

Já os demónios que nos comem por dentro são outra história, e não basta fingir que não existem, não basta afastá-los com alho e cruzes. E também não é só chegar e pagar. Dá trabalho, muito trabalho. E a gente sofre um bocadinho mais do que o sofrimento que provocaria uma simples cicatriz. Então, a gente deixa pra lá, usa e abusa dos botox, das academias, das lipos, compensa as frustrações mentais com chocolates, anti-depressivos e ginásio, marca nova lipo e pronto. E a cabeça, essa, serve apenas para segurar o cabelo, sempre bem lavadinho e hidratado, porque o que é importante é a gente parecer, parecer feliz, magra e nova.

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