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Drogas e religião: duas faces da mesma moeda

08/05/2014

As drogas, como a religião, são um meio que usamos para nos conectarmos com o nosso Self, o Rottenecards_572048100_rxc9sdkd3wnosso Eu divino, eu superior ou alma, como também é chamado. É por isso que há tantos ex-tóxico-dependentes que viram crentes. É a forma que se encontrou de os inserir na sociedade.

São instrumentos de libertação como outros quaisquer. No fundo, no fundo, todos queremos livrar-nos da ditadura do ego, que nos mantém no mundo coletivo, que nos faz ser aceites pela sociedade, mas que nos castra o que temos de mais precioso, o facto de sermos únicos e o que podemos fazer com isso, nomeadamente ser verdadeiramente livres. Deixarmos, por exemplo, de ser controlados, manipuláveis, castrados. Passarmos a viver de acordo com a nossa verdade, e não com uma verdade imposta, que não nos faz sentido nenhum, que apenas nos faz sentir inadequados, esquisitos, estranhos, por não a partilharmos, devemos ter algum problema. É isso que nos fazem crer, para nos manterem sob controlo.

O problema não é o uso de drogas ou da religião em benefício próprio. É acharmos que precisamos delas para chegar ao Self. Já o disse muitas vezes, as drogas, como o álcool, não nos dão nada que não seja nosso já, apenas fazem cair os filtros para que o consigamos expressar. Filtros é outro nome que podemos dar ao ego.

Drogas, religião, álcool, na verdade, não são uma fuga. Só o são quando usados sem moderação, como recurso, quando nos tornamos dependentes, quando não fazemos nada sem eles. Quando os usamos para expressar uma emoção.

Não é à toa que ingleses e alemães, quando bebem, ficam, em geral, agressivos, violentos. Porque as sociedades britânica e germânica são muito rígidas quando à expressão das emoções. Estas não são aceites. As sociedades escandinavas são exemplo de países civilizados, decentes, onde aparentemente tudo funciona. Vão ver quais são as taxas de alcoolemia na Suécia e venham falar comigo. As taxas de suicídio.

O arquétipo do Self, tal como todos os outros, tem um lado B, o fanatismo. É por isso que há tanto fanático a matar em nome de Deus, tanta gente aí a tentar evangelizar meio mundo. É por isso que há tanta gente que se mata, ou morre de overdose, na sequência de consumo de drogas pesadas, como a heroína. É gente que não vê uma saída no mundo comum, que não sabe que há outros meios de nos conectarmos connosco mesmos, que não necessariamente uma droga.

O problema é sempre, sempre, a polarização dos arquétipos, o que degenera em escolhas radicais. Isto Ou aquilo, em vez de isto E aquilo. O que degenera em excesso. Todos os excessos, todos, de trabalho, de consumo, de dinheiro, de comida, de sexo, são compensações materiais para necessidades psíquicas não satisfeitas. É o excesso de um para colmatar a falta de outro, o seu oposto. O que quer que seja que deixámos de fazer, seja porque motivo for, normalmente é inconsciente, está preso lá atrás, num complexo qualquer, cujo conteúdo não foi integrado na consciência.

A luta contra as drogas é uma luta em vão, enquanto se disser que as mesmas são más. Se fossem más, ninguém se viciava, ninguém consumia. Qualquer pessoa que tenha experimentado perder o controlo – não necessariamente com drogas ou álcool, a paixão, por exemplo, é uma forma maravilhosa de perder o controlo – um dia sabe o quanto é bom. No dia seguinte pode até arrepender-se, mas isso é um truque do ego para se manter no controlo. No caso da paixão nem precisa de ser no fim da mesma, é todos os dias. Por um lado ficamos enraivecidos porque não controlamos a nossa cabeça, por outro nunca nos sentimos tão bem, nunca nos soubemos capazes de um sentimento que nos preencha tanto, como o amor, seja ou não correspondida. Seja ou não consumada. (A paixão é uma projeção, by the way, é só uma projeção).

A forma de acabar com as drogas é parar de ver os utilizadores de drogas como seres do mal e os religiosos, ou os inseridos, que trabalham, têm filhos e casa própria, por exemplo, como seres do bem, pessoas normais. Pessoas normais o cacete, são tão frustrados quanto os outros, quanto toda a gente. A internet está aí para prova-lo. É só gente a reclamar da vida, a toda a hora.

Há sempre algo que deixámos de fazer quando fazemos uma escolha. E se o que deixámos de fazer não é de certa forma compensado, vivenciado, vai ser-nos cobrado lá na frente. Ou na vidinha de todos os dias.

Canalizar esse desejo de uma busca por algo maior para outra coisa, a música, a arte em geral, o desporto, o que for, que nos faça conectarmo-nos com o nosso Self, é uma alternativa às drogas.

Não adianta proibir, adianta acolher. Proibir não vai impedir ninguém de fazer o que quer que seja, apenas vai marginalizar pessoas. Como se adiantasse de grande coisa, como se nos livrasse de necessidades psíquicas que são de todos nós, todos, e que são materializadas por outrem. Necessidades essas que se prendem, mais uma vez, com o desejo, a vontade, de chegar à totalidade.

*Uma nota sobre o ego: é tão importante quanto o self, a questão não é acabar com ele, é procurar alinhá-lo com o self. Ego E Self, e não Ego Ou Self. Que é como quem diz: união dos opostos.

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