Livre

E a vida que adia sem explicação*

09/02/2017

Na esquizofrenia do mundo moderno, em que não somos ninguém se não estivermos permanentemente ocupados, há muito quem tenha, inconscientemente, medo de ficar sem nada que fazer. Temendo que os pequenos diabos da Tasmânia que vivem na nossa cabeça se soltem todos ao mesmo tempo. Por isso, adia a conclusão de coisas, ficando com a ilusão de que se mantém ocupado.adia

Coincidiu na semana passada e no início desta, ter fechado uma série de pendências. Algumas por resolver há três meses, outras há um ano, que entretanto perderam prioridade. Apesar de serem de resolução relativamente rápida, requeriam algum tempo, paciência e atenção.

A sensação é de espaço, mental e até físico, ainda que não me tenha livrado de nada material.

Normalmente opto por começar pelas mais rápidas, que estão mais próximas de resolução. Precisamente por isso.

A mensagem que vai para o cérebro é de conquista, de movimento, de continuidade.

Apesar de racionalmente fáceis e rápidas de resolver, emocionalmente são outros 500. E, por menores que sejam as concretizações, o que importa é o movimento que se gera. Que pede mais e mais movimento.

O inconsciente não hierarquiza, apenas sabe que há algo para fazer e se congratula quando está feito.

O contrário também se verifica. Se, por serem coisas menores, achamos que não nos perturbam, o que acontece é que ficam alojadas no inconsciente como pequenas pedrinhas no sapato, que não matam mas moem. E têm o efeito pica-miolos, que poderia resumir-se na frase: ainda estou à espera que me resolvas, e que se repete ininterruptamente.

Já para não falar na quantidade de coisas que se acumulam de tal maneira que se tornam avassaladoras e em relação às quais só resta uma solução: apatia. Deixar tudo a acumular pela sensação de ausência de recompensa imediata, nunca mais vou dar conta de tudo isto, que se lixe.

*Cassia Eller, O Segundo Sol (ardia, no original.)

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