Livre

É do nosso próprio Mr. Hyde que fugimos*

10/09/2015

Uma das falácias psíquicas que obsta ao perdão é a mesma que obsta ao contacto com a sombra. E tem a ver com poder. Não querer dar poder ao outro, ao que desconhecemos de nós, sobre nós, não contactando com ele, não perdoando, ficando, por isso, preso a ele e consequentemente dominado por ele, da pior forma, a que aparece nem sabemos de onde e toma conta de nós sem que nos apercebamos. Quando saímos do transe da sombra, do olho do furacão do complexo, é que nos damos conta de que aquela característica que achamos hedionda é também ela nossa.

Não quer dizer necessariamente que voltemos a relacionar-nos, precisamos de nos proteger, mas temos de alguma forma de saber que é nosso e entrar em contacto direto com isso dentro de nós. Se não contacto com isso, esse isso, seja lá o que for, vai continuar a prender-me e a dominar-me pelos meandros do inconsciente. Se conscientemente tiver a mesma postura da qual me queixo, talvez me desiluda de mim, mas pelo menos não mais serei apanhada na curva por esse complexo. Ele não me domina mais, não exerce mais qualquer poder sobre tudo o resto.

A desilusão em relação a nós mesmos é quase sempre do que fugimos, não do outro, ele só espelha exatamente a característica que é nossa e da qual insistimos em fugir. Da mesma forma, a raiva que temos não é do outro, é nossa. Quanto mais não seja por nos deixarmos cair uma e outra vez na manigância psíquica protagonizada pelo outro que encaixa perfeitamente no buraco escuro sobre o qual insistimos em não acender um feixe de luz.

*Às vezes tenho a sensação de já ter dito a mesma coisa milhares de vezes, espero que a perspetiva seja sempre diferente e o grau de consciência cada vez maior, que acrescente, ou não me serve de grande coisa…

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