Livre

E se te disser que controlo é liberdade?

21/04/2015

No outro dia, descobri que tinha um corpo. Enorme. Quando o vi desenhado no chão não consegui controlar um esgar de desapontamento, o meu olhar crítico desviou automaticamente para o que mais salta à vista, as ancas, não há dúvidas, é um corpo de mulher. De cabelo preso, no desenho parecia até careca, constato que a minha cabeça minúscula mal se nota, quando comparada com o resto.

E se te disser que vais gostar de estar num grupo? De mulheres, ainda por cima. Que, afinal, controlo é liberdade? Que vais querer saber da técnica e fazer repetições, sem revirares os olhos, sem te dispersares? Vais ouvir-me ou não?

Não preciso de desafiar a mente, faço-o instintivamente, o meu tipo é o pensamento introvertido, é-me natural. O que me desafia é a extroversão do sentimento, que está na minha sombra, apesar de o pôr ao sol muitas vezes, não nos melhores momentos, nem sempre ponho protetor, exponho-os assim, a um sol de 30 graus, depois de um inverno inteiro cobertos, apanho insolações amiúde…

Já o meu corpo, enferrujado pelos anos passados à secretária, a má postura típica de quem se considera apenas pelo intelecto, adotando uma posição qualquer desde que não atrapalhe, não me venha incomodar com dores, não desistiu de mim e reclama agora por atenção, exigindo-me que olhe para e por ele, de verdade, como é, sem o torpor da paixão, que já passou.

Nem respirar sabia, sequer me dava conta de que o fazia, instintivamente, no automático, inspirava do peito, talvez o meu coração precisasse de ar, encolhendo os ombros, enterrando o pescoço. Aprendo a respirar do diafragma, expandindo as costelas, mantendo os ombros intactos e o pescoço alto, deixando que o oxigénio me chegue ao tórax, a minha caixa de ar, afinal, também é enorme. Sinto-me nova, sou a mesma.

Não conheço a amplitude do meu corpo, que posso mover por partes, isoladamente, controlando o resto, libertando apenas o que está preso. Sinto-me como uma criança que se descobre, a felicidade das pequenas conquistas, já tinha saudades. O meu corpo é capaz de quase tudo, os meus olhos abrem-se de espanto, olha, olha o que consigo fazer, e rio-me, quase me comovo. É incrível ver até onde chega agora, em seis meses de prática bissemanal. Controlo é liberdade, afinal.

Somos quatro, 3 + 1, quase não se nota. Seguimos instruções e repetimos os movimentos conforme o desafio que representam, insistimos nos que mais custam, individualmente, focando num objetivo que é de cada uma e ao mesmo tempo comum, não nos passa pela cabeça desistir. Repito e repito até ver o meu corpo corresponder ao desafio proposto, que a minha mente aceitou sem condições. O olhar crítico da amplitude das minhas ancas e das imperfeições do meu corpo, que me tolhe e me faz encolher-me, é desviado para a minha alma e é nos meus olhos que me fixo, concentrando-me na sensação: o prazer supera a frustração e a liberdade supera o medo. Cada repetição é uma conquista. E a técnica, um meio para chegar a um fim. Criatividade sem técnica é liberdade sem consciência. Técnica sem criatividade funciona, mas não emociona. A perfeição é a sintonia entre uma e a outra, o resultado é belíssimo.

A cabeça é a última a girar e a primeira a voltar ao lugar. Tenho medo de a girar mais rápido do que o resto, de ter um torcicolo, partir o pescoço, que une a minha cabeça ao meu corpo, que via apenas como sustentáculo. São um só, mas agora posso movimenta-los separadamente, a ritmos diferentes, com consciência. Basta para isso que os reconheça e os isole, momentaneamente.

Das primeiras vezes desequilibro-me, o meu olhar dispersa, fico tonta, mas insisto. Volto a olhar-me nos olhos, concentro-me, inspirando profundamente. Estou inteira agora. Fecho o meu corpo num bloco único, dou um passo em frente, expirando o tempo todo, e giro sobre mim mesma, sem medo. A sensação de liberdade é imensa, o poder do giro afrodisíaco, giro outra vez, quase me vicio, cheia de vontade de sair por aí a rodopiar, como a Julie Andrews.

Os nossos movimentos estão sincronizados com a música, numa sintonia perfeita. Estamos unidas pela dança, umas vezes aos pares, comunicando sem falar, olhamo-nos, reconhecemo-nos uma na outra e sorrimos, outras numa linha só, apenas o colorido diferente dos nossos lenços revela que somos distintas. Ninguém compete, ninguém procura protagonismo ou cai na tentação do narcisismo. Somos quatro e uma só, acertamos os passos a compasso, para que tudo saia o mais perfeito, bonito e sincrónico possível, unidas, comprometidas umas com as outras e com o resultado final, celebrando em conjunto a criação, a união do feminino, na dança, na arte.

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