Livre

E se te disser que cozinhar é um prazer?

28/04/2015

Dir-me-ias que é batota, para cozinhar é preciso ser criativo, vindo daí o prazer. E quanto ao teres-te deixado nutrir por mãos que nem conheces? Alimentos que vêm sabe deus de onde, comida processada, deus te valha. A comida pronta não tem o ar caseiro, muito menos o sabor, sabe a indústria, a comida feita em série. Em que mãos tens deixado o teu combustível? Não por uma questão de desconfiança, mas de dependência, de presença. Não há amor, há apenas profissionalismo, obrigação e tempo contado. Sujeita aos apetites de quem cozinha, às horas dos outros, conformando-te com o que há, qualquer coisinha serve, desde que tire a fome e não agrida as papilas gostativas. Fazer depender a nossa fome de outrem é permitir que decida o que nos nutre, correndo o risco de nos convencermos de que não conseguimos fazê-lo nós mesmos, de que nos vamos tratar mal se não houver quem trate de nós, imagine-se.

Precisava de um tempo que não decidisse, que não controlasse, o tempo do fogo, do fogão, um abracinho ao criativo que põe o bico de gás maior no canto de fora, de mexer na comida com as mãos, lavá-las amiúde cheia de algum nojinho. Só até pôr as mãos na massa, literalmente, integral.

Resolvi que quanto mais biológico melhor. Cortei por completo com todos os produtos lácteos por um mês, as grandes mudanças começam sempre por igual dose de exagero. Agora já consumo leite, muito pouco, sem lactose, e não resisti a uma manteiguinha dos Açores, que dizem que é sem colesterol, e eu acredito. Raramente me lembro dela, mas está ali, para o dia em que me apetecer. Iogurtes só de soja, daqueles grandes, do celeiro. Também mal bebi café por um mês, só a chá verde. Agora voltei ao café de manhã, só um. E mudei de supermercado, o do bairro dá-me cabo dos nervos, está sempre cheio de gente a falar altíssimo, com carência de contacto físico e alguma dislexia motora, a educação manda lembranças. E o meu cérebro fervilha demais para tanta solicitação, externa, ainda por cima.

Faço sumos naturais todos os dias, cítricos, laranja, limão, acrescento-lhe cenoura e gengibre, ou morango e hortelã. Os morangos do supermercado do tio Jerónimo não sabem a nada, os da mercearia aqui de baixo sabem a morangos de verdade, os do tio Belmiro são mais ou menos. E cozinho, todos os dias.

Adoro o cheiro das ervas, ponho alecrim e orégãos em tudo. Às vezes esqueço-me do alho, o manjericão acabou. Já queimei uma panela, menosprezei o tempo da cozedura, achei que não fazia mal ficar mais um bocadinho enquanto acabava já nem sei o quê. Quando dei por mim, a água tinha desaparecido, sabe deus pra onde, a massa colada ao fundo e a panela preta de lado. Só uso tomates com ramagens, não por fetiche, por terem o tamanho perfeito. Assim que me ponho a cortá-los esqueço-me de tudo. Sou muito rápida, os meus dedos querem fugir para o teclado, a minha cabeça não para, rapidamente as cores dos alimentos me trazem de volta.

O prato principal é sempre criação minha. Das primeiras vezes maravilhei-me com os cheiros, as cores dentro da frigideira, a alquimia a acontecer ali à minha frente. Como é um processo mais rápido, visível e objetivo do que o mental, o ato de cozinhar é uma terapia. Agora chateia-me ligeiramente fazer sempre a mesma coisa, já não estou presente, outra vez. Há espinafres a rodos cá em casa, apetece-me ousar e fazer uma das receitas da Sofia com eles, para variar dos peixes omega três e do frango. No outro dia, caí na tentação de comprar mais do que devia, acho que se estragou, está com um cheiro esquisito, a ver se me lembro de o congelar. Ovos só biológicos, fruta e legumes todos portugueses, são os que ainda sabem a alguma coisa. Hoje quase comprei bananas, mas eram da Costa Rica. Carne vermelha nem vê-la, o resto ainda não me atrevi, e o formo continua a dar-me medo. Pré-aquecer… Pré-aquecer até quando? Durante quanto tempo?

Continuo a preferir de longe cozinhar palavras, o que verdadeiramente me traz para o meu centro, é só o que me apetece fazer, 24 horas por dia. Esqueço-me que é nas pausas, nas distrações, que as ideias vêm. E que sair duas vezes por semana para ir às compras tem as suas vantagens, não preciso de acumular, de adotar comportamentos enraizados que já não se coadunam com a ressignificação que fiz do que a comida e o ato de cozinhar simbolizavam para mim. Mudar de supermercado ajudou, aquele esgotava-me.

Estou cheia de método, os gestos repetidos, mecanizados, exatamente os mesmos, pela mesma ordem, todos os dias, há semanas. Logo eu. Não me perco, tudo está sincronizado. O tempo da fervura, do cozinhar no azeite, do bater da fruta no liquidificador, para que nada esfrie, nada se perca, tudo se coma.

Reparo que quando estou presente no ato de cozinhar sai-me melhor do que quando o faço com a cabeça nas palavras. Insisto, tudo quanto me tire do mental ‘tá valendo, dá-me prazer, quebra uma atividade diária, na qual me embrenho sem dar pelo tempo passar, mas não me pode tomar todo o tempo, o tempo todo. Há outras que me mantém conectada, quantas mais, melhor. E é uma luta continua, esta de contornar o cérebro, de quase o forçar a estar presente no que quer que seja que estiver a fazer. A resistência acaba, a atitude muda, o tempo corre veloz e o resultado é outro, melhor, muito melhor. Ressignificar é preciso, sempre, o tempo todo, a seu tempo.

O site da Sofia é a minha bíblia. Já fiz uma das sopas, sem alho francês e extra espinafre, ficou boa, mas verde demais, preciso de o equilibrar com outra coisa. Não me lembrei foi que são receitas familiares, metade dos ingredientes chega-me bem. Já me esqueci do nome das vitaminas de que preciso, mas não me devem estar a faltar, e o sol está aí para me dar vitamina D direto na veia. A ver se me lembro de comprar bananas e abacate, dão uns batidos fabulosos. Também já fiz os crepes, com farinha de milho, não havia da outra, ficaram bem bons. A outra sopa, com hortelã em vez de coentros e as natas saudáveis para engrossar um bocadinho, ficou divina. E as panquecas, com os espinafres que sobraram da sopa, deixaram-me com vontade de as fazer todos os dias.

A experiência tem sido incrível, às vezes caio em tentação, por isso almoço às quatro da tarde. A princípio foi uma confusão, só queria escrever, as ideias fervilham a cada palavra, os artigos multiplicam-se na minha cabeça, a querer sair, a toda a hora. Foi uma questão de tempo, quando estamos comprometidos connosco arranjamos forma de conseguir fazer tudo. A prioridade somos nós, já estamos no lucro, tudo o que vier é um extra. Os dias estão organizados, por horas e atividades, para que nada fique em défice. Caso contrário, já sei que me vai ficar a martelar na cabeça até que o faça, boicotando tudo o resto, desconcentrando-me, comprometendo resultados, acabando com o meu humor.

A Rebecca continua a ser a minha grande amiga do momento, todos os dias, antes do almoço, já descobri onde moram os meus oblíquos, qualquer dia gritamos em conjunto #Ifeeltheburnrebecca .

Têm sido tempos animados, qualquer dia conto-te dos meus passeios no bosque.

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