Livre

É uma questão de colapso da fantasia

09/10/2015

Recentemente, Matt Damon aconselhou os atores homossexuais a manterem a sua orientação sexual dentro de portas, o que é diferente de mentir quanto à mesma, de mandá-los esconderem-se, de a negarem categoricamente, e por aí fora.

Em tempos recentes que se mantêm, a Globo tem retratado diversos casais gay nas suas histórias, na sua grande maioria masculinos, mais recentemente um casal feminino. De um jeito tão paternalista e politicamente correto que cheira a descriminação positiva à distância, ao mesmo tempo que, de certa forma, proíbe os atores sob a sua alçada de revelarem a sua orientação sexual, aconselhando-os mesmo a mantê-la em segredo, caso sejam homossexuais. A Globo tem uma série de atores contratados em exclusivo a quem paga um salário que não deve ser baixo, para que se mantenham fieis à produtora, chamando-os ao palco sempre que se justifica.

Raramente é uma questão de preconceito, na grande maioria das vezes é uma questão de colapso da fantasia. A ficção vive da fantasia e na fantasia podemos tudo, inclusive aspirar a um romance com uma estrela de Hollywood, ou com a personagem que criámos na nossa cabeça pelos filmes que vimos e pelo que o ator em causa nos suscita, que é o que nos faz pagar para ver os filmes em que entra, que é o que o faz ser contratado, independentemente do seu talento. Se se escolhessem protagonistas apenas pelo seu talento na representação, a ficção portuguesa praticamente não existia ou resumia-se a séries e novelas com uma dúzia de atores.

Sempre achei o Malcovich um gajo incrível, lindo, até, mesmo sem cabelo, eu gosto de cabelos fortes e farfalhudos, e lembro-me da desilusão que tive quando vi o filme Being John Malcovich e, à mínima sugestão de homossexualidade, ter dado por mim triste e desiludida, lá está, por – na minha fantasia, racionalmente nem me passava pela cabeça, – não mais poder aspirar a um caso com ele. O resultado? Não mais acompanhei a carreira do ator, nunca mais corri para ver os seus filmes. Continuo a achá-lo incrível na maravilhosa arte da representação, mas já não me faz suspirar…  Ainda que, ante a remota possibilidade de um caso com ele, saber quase instintivamente que me acagaçaria e daria para trás, parecendo esquizofrénica. É assim que a fantasia funciona,  ela só aspira mesmo a ser fantasia…

Poderíamos também dizer que é uma questão de credibilidade, por mais fantasista que seja a ficção, a possibilidade de realidade encanta-nos a todos, e um ator gatésimo que se assume homossexual perde imediatamente a possibilidade de vir a fazer par romântico numa comédia do género, ou de macho herói, o que o limita no seu trabalho e a nós, aspirantes a candidatas, nos faz perder a vontade de o ver a representar um papel de galã inatingível. Mas tem muito mais a ver com a quebra da fantasia do que com qualquer outra coisa qualquer. E Hollywood e a Globo, mestres da fantasia, sabem disso melhor do que ninguém.

NB: Eu contrario os tempos modernos e ainda acho que a intimidade de cada um é para ficar entre os envolvidos, não para partilhar com o mundo, o mundo não é meu íntimo, não serve para expiar a minha neurose. É uma questão de proteção, de sobrevivência, não de pudor, tabu, puritanismo, ou o que quer que seja, ou falta dele.  Abro uma exceção moderada e contida for the sake of the art.

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