Livre

Ecstatic Sushi

31/01/2016

Até ontem, achei que a única coisa capaz de nos transportar mentalmente, com uma precisão cirúrgica e sem margem para dúvidas, para um lugar específico, ou nos fazer lembrar de alguém, era o cheiro.

Depois de dançar como se a minha vida dependesse disso, num espaço onde largamos malas, sapatos e casacos à porta, e dançamos descalços num dance floor onde não se fala, não se vendem nem se consomem bebidas alcoólicas e/ou drogas, children friendly, sem acesso ao telefone, a única coisa que está entre nós e a música é a nossa cabeça e a nossa capacidade de nos deixarmos ou não levar por ela. Como o som era bom, foi só fechar os olhos e deixar o corpo reconhecer os movimentos, as batidas e os acordes, mexendo-se em sincronia perfeita, tornando-me eu, a minha cabeça e o meu corpo, e a música, numa coisa só. A música mudou, a fome apertou ligeiramente, ao mesmo tempo que a calma me invadiu, era como se tivesse expulsado tudo quanto era tensão e demónios do corpo, ainda em modo que nem sei descrever, depois de ouvir Lazaro, precisava de comer, algo levezinho…

Desde que vim de São Paulo que não como sushi e à simples menção da sugestão, aceitei imediatamente, sem reservas. Tinha imensas saudades.

O espaço podia ser na Liberdade, lembro-me de ter ido a um sushi lá uma vez, a distribuição era igualzinha. Mas foi quando, com os meus pauzinhos de elástico, pus o primeiro pedaço à boca que a minha cabeça voou imediatamente para um certo sushi na Vila Madalena, onde fui muitas e muitas vezes com a Luísa, para nos alambazarmos de Hot Rolls como se o mundo fosse acabar e nós não quiséssemos deixar nenhum para contar a história, enquanto falávamos mais que a nega do leite. A minha cabeça ficou em São Paulo uma boa meia hora pelo menos e só a excelente companhia impediu que o meu olhar se ensombrasse e a nostalgia da saudade me invadisse e tomasse conta do momento. Em vez disso, vagueei até à Amazónia, lembrando-me que a forma mais eficaz de resolver uma projeção positiva ou negativa é encarando-a, vivendo-a, e à vida, com a confiança de que está tudo certo. De que estou sempre no lugar certo, à hora certa, com as pessoas certas, desde que esteja em presença, corpo, alma e cabeça no mesmo lugar, seja onde for, esteja com quem estiver. Tudo certo.

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