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Emocionalmente zen

31/10/2014

Às vezes tenho inveja do povo zen, que não mostra o que sente, que mantém o ar seráfico, a cara de cera, o sorriso colado e inexpressivo. Principalmente por serem capazes de conter a besta.

Ao mostrarmos o que sentimos, ao soltarmos a besta, estamos aparentemente a dar poder ao outro sobre nós, a mostrar uma fraqueza, que ele poderá usar quando e como quiser, em lhe faltando ou não o caráter, sendo ou não tomado pelo complexo, que se torna mais e mais autónomo à medida que a intimidade entre os intervenientes aumenta. E não é necessariamente de intimidade física que falamos aqui, mas de intimidade emocional. É um perigo, é quando eventualmente achamos que podemos tudo, o princípio do fim, como todos sabemos.

Tenho inveja acima de tudo pelo alvo da sessão de descarrego, porque o ser humano me merece alguma dignidade e porque não me dá prazer nenhum magoar, agredir ou ferir um semelhante. Vai daí, gostaria imenso de ser emocionalmente zen.

No entanto, já tenho idade para saber que o que não é verbalizado se volta para dentro, é como uma ténia, que nos carcome o cérebro e nos amarfanha o coração. O que não é verbalizado é posto em prática, inconscientemente, sem que façamos a mínima ideia do impacto que causa, feitos uns sem-noção cheios de razão.

Vai daí, e não que me orgulhe, é mais uma fatalidade, um traço de personalidade, eventualmente parte da minha identidade, cansei de lutar contra a minha natureza, e quando já tentei de todas as maneiras ao meu alcance (quando estamos abduzidos por um complexo é como se estivéssemos apaixonados, ou seja, meio burrinhos, tudo o que não confirma mas desmente o que acreditamos é liminarmente ignorado), inevitavelmente a besta surge e fala, claramente, com todas as piores letras de que se lembra, o que deixou acumular na garrafa das emoções. Sente-se mal depois, descobre que não é santa, zen, superior ou esclarecida, mas é o único jeito de garantir que fez o que pôde, lavando as mãos e seguindo em frente, para a parte pior, o signo por trás do símbolo.  Aí sim, é a doer…

Descobri que não damos poder a ninguém, apoderamo-nos isso sim do poder que outrora tínhamos por péssimo hábito deixar em mãos alheias, o que é tomado pelo complexo, que é autónomo, nosso, pessoal e intransmissível. Bem como a sua tomada de consciência, onde reside o verdadeiro poder. Só aí nos tornamos zen, quando deixa de nos incomodar, e não quando calamos.

Já somos tudo o que queríamos ser

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