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Emotions, emotions, emotions…

06/06/2013
Honestidade não é dizer o que pensa, até porque na grande maioria das vezes pensamos um monte de barbaridades e normalmente é sobre nós mesmos, apenas as projetamos nos outros. Nós só vemos o que é nosso e não o reconhecemos. Ou então sentimo-nos na obrigação de reagir exageradamente, de comentar, de mostrar indignação, porque é o que é suposto fazermos. Mas, ainda assim, é nosso e nós simplesmente não o pomos em pratica, na grande maioria das vezes, ainda bem. Mas precisamos de o reconhecer em nós, enquanto potencial, pelo menos… 
Honestidade é dizer o que sente. Só me lembro da Miranda, no filme do sexo e a cidade, quando, depois de estar separada do Steve porque ele teve um one night stand que não significou absolutamente nada, a Carrie lhe diz: tu vais sentir se vais querer ficar com ele ou não. Ao que a Miranda responde: então tou f*dida, não faço a mínima ideia do que sinto. 
A personagem da Miranda, como a da grande maioria das mulheres ocidentais, é masculina, racional, além da conta. Nós, principalmente as do hemisfério norte, e na Europa isso é gritante, quanto mais pra norte pior, somos tendencialmente assim, precisámos de desenvolver o nosso lado masculino a partir do momento em que nos permitimos ter uma carreira, para além de um casamento e de filhos. Só que esse lado masculino exacerbou demais, na grande maioria das vezes por causa de associações distorcidas do que é o feminino, do que ele representa, da ameaça do machismo, quando nós somos as primeiras a nos comportarmos como machos… 
De nada nos adianta maquilharmo-nos, usarmos vestidinhos e saltos altos, decotes até ao umbigo (o lado B de Afrodite explica muita coisa, o sexo enquanto forma exclusivamente de poder também…) e cabelos esplendorosos se isso apenas servir para mantermos uma imagem, para disfarçar qualquer coisa, se isso não vier de dentro. Não nos serve de nada se, apesar de femininas por fora – e isso muitas vezes muda, sem que demos conta, o nosso comportamento, tornando-nos, mesmo, mais femininas – nos mantivermos no padrão masculino da ação, da atitude, do fazer. Ao invés de nos permitirmos, simplesmente, ser mulheres, com tudo o que isso implica, nomeadamente ser, não fazer, empatia, não concorrência. Ao concorrermos, e aqui o intelecto tem um papel primordial, passamos a ser um dos gajos e nós, garanto, não vamos querer isso, por violar a nossa condição primeira. 
O ar de duronas, de aparente auto-confiança, do joguinho idiota do gato e do rato, só dura um segundo, na fase da conquista, da caça, depois, o que sustenta um relacionamento é a conexão das emoções de ambos, não o intelecto. É a força que vem de dentro que nos permite sermos vulneráveis por fora, é aí que mora a verdadeira auto-confiança, só aí, em mais lugar nenhum. 
Para tornar o quadro ainda mais esquizofrénico, tendemos a confundir feminilidade com futilidade, carinho com lamechice, com viadagem e com outros atributos igualmente castradores, elogio com subjugação, expressão das emoções e dos sentimentos como sinal de fraqueza – o sinal verde pro abuso, na forma de ridicularização, de desprezo, de qualquer tipo de abuso emocional –  a aparente modéstia com profunda auto-depreciação e, consequentemente, dependência de validação externa. Para evitar tudo isto, mantemos a couraça e insistimos nessa esquizofrenia de ganhar uma discussão, ao invés de tentarmos chegar ao outro através do coração, da empatia. Ao mesmo tempo, mantendo-nos firmes e fortes nos nossos quereres, por dentro… Atente-se para a confusão que se gera: se não somos verdadeiros, se apenas queremos manipular o outro, a reação não é de empatia, mas de sentimento de culpa, que, mais uma vez, gera uma situação de poder…
Não se trata de ser terapeuta de ninguém, nem de tentar convencer ninguém do que quer que seja,  de lhe resolver a vida, arranjar-lhe soluções, muito menos de bancar o super-herói, que tudo aguenta. Não aguenta, mesmo, e é bom que o manifeste, enquanto as emoções ainda estão sob controlo, para podermos travar a tempo o que pode degenerar numa escalada de agressão verbal que não tem volta… Podemos até ficar no relacionamento, mas já não estamos lá, de coração, de cabeça, não estamos, só de corpo…
E isso só para quando aprendermos a reconhecer as nossas emoções, quando nos permitirmos aceitá-las como sendo parte de nós, e não algo de que nos devemos envergonhar, que devemos esconder, quando nos permitimos vivênciá-las e expressá-las, sem acusações, sem culpar ninguém, sem responsabilizar o outro pela nossa própria infelicidade. A nossa infelicidade, a nossa frustração, vem precisamente daí, de não nos permitirmos sentir, mas apenas e quase sempre pensar, ou reagir… 
Defendemo-nos constantemente do que melhor podemos dar ao outro, e receber do outro, amor. Quando é verdadeiro, não é ameaçador, porque é, em última instância, o que segura um relacionamento, obviamente conjugado com alguma dose de racionalidade. Mas sem nunca, nunca, descurar o que sentimos. Não são os sentimentos que são traiçoeiros, são as emoções, que só o são se não forem expressas no momento exato em que as sentirmos. Para que não venham à tona do nada, nos momentos mais inoportunos.     
Nós só morremos quando o nosso coração para de bater, não quando o nosso cérebro para de funcionar…
Às vezes odeio os malditos gregos, independentemente de os entender perfeitamente, de lhes agradecer a racionalidade, não fossem eles e ainda andávamos todos sob ameaça de sermos queimados em fogueiras. Mas esse tempo já lá vai e não temos como voltar a ele, a racionalidade já nos pegou, só precisa de ser equilibrada com as nossas emoções, é a tal da consciência de alteridade, difícil, muito difícil, mas alcançável, pelo menos como reminder de como podemos eventualmente fazer funcionar as coisas, numa solução de compromisso…

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