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Equilíbrio entre os opostos

15/04/2015

Há um meio caminho entre a esquizofrenia e uma psique una e indivisível, quanto mais não seja porque todos somos passíveis de ser tomados por um complexo e ter reações e comportamentos completamente irracionais.

A esquizofrenia caracteriza-se por uma cisão do ego na infância, o que faz que as pessoas diagnosticadas com esta psicose, para além de não conseguirem ter uma vida dita “normal”, trabalhar, relacionarem-se, serem capazes das coisas mais básicas como dizerem o que querem e de que forma, num estabelecimento comercial, por exemplo, precisem de compensações químicas, comprimidos, para não saírem por aí a fazer sabe deus o quê que as vozes na sua cabeça estiverem a mandá-las fazer, sem um ego que lhes ponha um travão e as faça temer as consequências dos seus atos, que podem ser inclusive criminosos. É uma doença mental e sê-lo-á para todo o sempre. 

Outra coisa é o caso do piloto da Germanwings, que, repetimos, não era depressivo, se era, não foi isso que o levou a despenhar-se num avião comercial cheio de gente e a matar 150 pessoas. O que o levou a um crime hediondo como o que cometeu nem sequer foi um surto psicótico, foi uma psicose pura e dura, porque toda a ação foi planeada com antecedência, em momento algum ele parou para pensar na quantidade de gente que estava no avião e de cuja morte ele é o único responsável. Aqui existe um ego completamente polarizado e uma consciência plena do que se está a fazer. Ou como num caso que ouvi hoje, em que alguém devia uma fortuna a outrem por serviços prestados, que não pagou, e foi vítima de “justiça pelas próprias mãos”, por parte do cobrador da dívida, que obviamente acabou preso.

Outra situação ainda é a situação, ou situações, que todos nós vivemos todos os dias, porque todos, todos, temos complexos, questões que ficaram retidas na época em que aconteceram e não foram resolvidas psiquicamente (Freud chama-lhes recalcamentos), ficando fixadas e vindo à tona a cada vez que o complexo é tocado. Sempre que isso acontece, nós temos reações exageradas e completamente despropositadas em relação ao tema do complexo. Quando saímos do complexo, o exagero e o despropósito acabam, voltando, em princípio, tudo ao normal.

Nestas duas últimas situações, existe um self (enquanto coordenador psíquico, arquétipo central, como lhe chamou Byington, para o distinguir do Self) que deveria ser capaz de pôr um travão a qualquer manifestação de um complexo, para que não nos falte o discernimento ao ponto sermos capazes de qualquer coisa para que o complexo se mantenha vivo e de boa saúde.

Os manipuladores emocionais, ou qualquer pessoa que sofra de uma patologia de poder (vale lembrar a frase de Jung: onde há poder, não há amor e onde há amor não existe necessidade de poder), e que faça disso modo de vida, são grandes especialistas nesta matéria e é por isso que não dá para manter relacionamentos com eles, que farão e dirão qualquer coisa para se manterem no controlo. Agora pense no pior que lhe poderiam fazer ou dizer, a si e ao que lhe é mais caro e precioso, filhos incluídos, e que compromete seriamente a sua vida, psicológica, emocional e física.

Uma personalidade desenvolvida requer uma psique una e indivisível, que, não sendo imune à manifestação de complexos, detém um autocontrolo maior e uma capacidade de equilibrar ego e Self, em que o ego funciona ao serviço do Self, ou seja: nem o ego nem o Self têm autonomia total (que é o que acontece com o ego dos manipuladores emocionais e com o Self de algumas pessoas, as que se acham Deus, o profeta, as que fazem qualquer coisa pela causa em que acreditam, o estado islâmico é o melhor exemplo disto), o que nos conduz a soluções equilibradas, no sentido em que satisfazem o coletivo e o individual (e todos os pares de opostos que vos ocorrerem), e não um ou outro.

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