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Escrevo-te estas linhas…*

01/07/2013
É com uma lágrima no canto do olho, qual Bonga – sabes quem é o Bonga? Um preto 2 por 4 muito castiço que canta que tem uma lágrima no canto do olho, que tem uma lágrima no canto do olho, e que anda às voltas, da lágrima e do olho, e não sai dali, sabes? –, que te escrevo estas linhas directamente do teclado imaculado do iBook G4. Poderia escrever a pena, há um certo romantismo no correr da pena, mas, e tenho pena, não posso. Se pudesse usaria aqueles tinteiros hexagonais para molhar o aparo de uma pena de 30 cm, em tons de castanho, ou azul, não sei de que ave poderia ser, para te escrever estas linhas. Usava aquela letra retorcida e enorme, ligeiramente inclinada para a direita, à antiga, dobrava o papel de carta sem ser perfumado, e metia-o dentro de um envelope amarelado fechado a lacre, há um certo romantismo no lacre…, e mandava-to pelo correio, como dantes. Mas não posso. Não tenho a tua morada. Além disso nunca me dei muito bem com canetas de aparo, irritam-me as manchas de tinta que inevitavelmente encharcam o papel. E como giro a caneta nas mãos frequentemente, também me irrita que a tinta falhe e que me obrigue a procurar a posição certa para escrever sem falhas. Não temos tempo para isso. A inspiração não espera por uma caneta com manias. Esvai-se rapidamente. Nos tempos que correm anda tão escassa… Não dá para arriscar. Também te poderia escrever com a esferográfica que um monhé deu à N, com a qual fiquei sem querer, que uso todas as manhãs para rabiscar as traduções que me pagam o tabaco de enrolar e as bujas no Bairro Alto – por uma questão de rentabilização de tempo, para não ter de saltar de janela em janela, já não me lembro como é que se põem duas janelas a funcionar ao mesmo tempo, sem me desaparecerem da vista, aqui no iBook, mas hei-de descobrir – por que tem uma escrita leve e rápida, e que já me pintalgou o iBook G4 de tinta azul que não sai com os toalhetes do Dia, que uso para tentar preservar o brinquedo que tão generosamente te ofereceste para me fazer chegar às mãos, o G4 com o qual perdeste tantas horas para que me chegasse completo e intocável, novo em folha, sem o qual já não passo. Hei-de experimentar com álcool. Também podia usar a Parker que a minha mãe me ofereceu já não me lembro em que ocasião, que escreve que é uma maravilha e tem uma cor fantástica. Mas a preguiça invade-me o espírito. E assim aproveito o corrector automático do Word em português, obrigada, que me esmiuça as gralhas e impede esta prosa de ficar com erros de ortografia e tal. Deixei de escrever à mão, sabes? Nos tempos modernos das comunicações à distancia e com o choque tecnológico, que o outro que se diz primeiro-ministro nos quer impor, uso e abuso do iBook G4, que nunca me falhou, para tudo. Para música, fotos, filmes, para matar saudades da família no Skype, para falar no msn, contigo já não falo, tirei o teu msn da minha lista, também sabes disso não sabes?, e para escrever as bujardas com que alimento o blog todos os dias. Às vezes, longe do iBook, uso a Moleskine mas na maior parte das vezes prefiro a escrita inteligente do Nokia para registar ideias que me vêm à cabeça e que tenho medo de me esquecer. Guardo a mensagem nos itens gravados e, já perto do iBook, volto lá para ir buscar o que quer que seja que na altura me pareceu partilhável. Por que escrever exorcisa, é como falar alto e já dizia o meu prémio Nobel da literatura de eleição: as coisas perdem metade da importância quando ditas alto. A partilha é de certa forma egoísta, como praticamente tudo o resto resume-se ao Ego. E o Blog é puro ego. E os desconhecidos virtuais que por cá aparecem fazem-me falta. Preciso deles, dos comentários deles e dos olhos atentos que cá vêm mais do que uma vez por dia. E que por cá ficam uns bons minutos. Porque eles não são como tu, nem tu és como os conhecidos que também cá vêm, eles não ficam aqui 0:00 segundos, ainda estou para perceber porque fazes isso. Tu sabes que controlo quem cá vem, não sabes? Claro que sabes. Há posts e posts que não escrevo nada de jeito. Houve aquele das marcas, que gostei muito, que até lhe alterei data e hora para que permanecesse mais tempo na primeira página do blog, e assim de repente acho que o anterior tinha sido o dos cheiros, vê lá há quanto tempo isso foi… A inspiração falha-se-me. Invento early morning posts (EMP) para agarrar o mulherio, para animar o povo, para me animar a mim, os comentários aumentam e eu fico feliz. Muitas vezes inspiram-me outros posts, como foi o caso dos EMP, a ideia surgiu na caixa de comentários. Mas o problema é que não há assim tantos merecedores de honras de EMP, tive de acabar com eles. A inspiração vem quando menos se espera, e postar seja o que for é uma maneira de prender quem cá vem. Tem dias que me apetece acabar com isto, no segundo a seguir sei que não posso. Por que escrever é terapêutico. E o blog obriga-me a escrever com regularidade. E eu preciso de escrever. E de publicar. No blog. Gosto de escrever posts de uma frase só. Por que têm um impacto diferente. E há coisas que só se dizem numa frase. Ou em duas. Tenho tendência para a condensação, não gosto de repetições, de dizer 30 vezes a mesma coisa, como fazem os jornalistas nas notícias que sou obrigada a traduzir todas as manhãs. Os posts demasiado grandes dão-me seca. A maior parte deles não leio, confesso, à excepção de um ou dois blogs que podem até escrever lençóis que leio tudo, do princípio ao fim. Não é fácil escrever posts grandes, tem de se saber agarrar quem lê e isso não é para todos. Não sei se é para mim, mas tem dias que gosto de fazer render o peixe e é assim que alguns dos meus posts resultam enormes. E quando gosto dos textos que escrevo, gosto de os ler e reler. Para os enriquecer. Mas não sei se alguém terá paciência para os ler até ao fim. Como este, por exemplo, não sei… São capazes de saltar frases, ainda que sem querer, que os olhos fogem-se-nos quando as frases estão seguidinhas, sem double space, este praticamente não tem parágrafos, ainda por cima. As pessoas fogem de posts sem parágrafos como o diabo da cruz. Não têm tempo. Os posts sem parágrafos assustam. Sei que não lês posts grandes, não tens paciência. Mas pode ser que leias este. Imprime e leva prá casa de banho, tens mais tempo e é mais fácil de ler do que no ecrã do teu Mac.
Escrevo-te estas linhas directamente do teclado imaculado do iBook G4, sabes que às vezes tenho de lhe tirar as teclas para soprar as cinzas dos Amsterdamer que involuntariamente deixo cair em cima dele? Às vezes tenho de fazer isso. Ao princípio custou-me, por que parecia que não saíam. Agora faço-o com uma perna às costas.
Escrevo-te estas linhas directamente do iBook G4, este post já vai em 2 páginas de Word e temos mesmo de acabar com isto, pra te pedir que te vás embora. Que não ponhas cá mais os pés. Não me interessam os 0.00 segundos que aqui ficas das várias vezes que cá vens. Não me interessa auto-massacrar-me com as tuas visitas. Fazem-me mal, agora sei. Por que já percebi e por isso podes ir-te embora. Anda, vai-te embora. A sério, vai lá… Vai à tua vida, vai, e deixa-me na minha que ficamos melhor assim.

*Musa de estilo: Diana Ralha
@30Março 2006

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  • prima inês 30/03/2006 at 16:44

    Eu também gosto muito desta escrita. Neste caso, da TUA escrita. No final até me arrepiei. Transmites tantas emoções! Beijinhos mil

  • ISA 30/03/2006 at 16:47

    valeu Inês! :-D bjs milhões

  • bonifaceo 30/03/2006 at 17:46

    Só havia uma coisa que chateava no post, que era o raio do ibook g4, ups, o “bê” é maiúsculo… e o “gê” também… (e chamares-lhe imaculado), tirando isso, pronto, não foi mau, fiquei um bocado perdido porque ouvi a notificação do outlook a dizer-me que tinha recebido email, em princípio um comentário, mas quis ler primeiro o post até ao fim, e li. Se tivesse metade do tamanho era melhor, na

  • Alexandre 30/03/2006 at 17:47

    Isa
    Ganda texto. Continua a encantar.
    Beijo gigante
    Alexandre

  • cinderela 30/03/2006 at 17:51

    Olha, só para dizer que li até ao fim. E não saltei linhas ;)
    A falta de parágrafos não me mete medo …LOL

    Qto ao destinatário-mor deste post, acho q vais ter de viver com a vinda dele aqui. A experiência pessoal diz-me que ele (o destinatário!)n irá embora só por tu pedires. Irá um dia, quando desistir, qdo perceber que nao vale a pena “massacrar-te”.

    Beijos!

  • ISA 30/03/2006 at 18:31

    Obrigada Boni, sei bem como os posts grandes podem ser chatos, um gajo perde-se e tal, mas este tinha de ser. Acho que a forma faz prender. assim espero.

    Valeu Alexandre, beijos pra ti tb.

    Cinderela, querida, não sei se ele sabe que eu sei que ele cá vem, acho que calcula, porque faz de propósito para que n consiga identificá-lo. mas eu sou esperta, não sei se ele sabe disso, e

  • ISA 30/03/2006 at 18:35

    que é um prodígio de jactância, diz ele. e ele qdo n gosta, qdo n tem nada a dizer, n diz. n é por ser meu pai que fico tao contente, é pq quem o diz é um admirador confesso de eça de queiroz. este admirador confesso de eça de queiroz gosta do que escrevo, e isso é TUDO!

  • Rui 30/03/2006 at 18:43

    Irreverente até ao osso. Assim é que está bem.

  • Dia 30/03/2006 at 19:11

    Este tipo dá sempre grandes textos. E eu adorei ser a tua musa de estilo.

  • ISA 30/03/2006 at 19:14

    valeu, valeu! bjs prós 2!

  • maria 30/03/2006 at 23:45

    De “chofre” e directo. Ben(m)..feito!

  • maria 30/03/2006 at 23:46

    E estou com o teu pai o Belmiro ia amar ler o teu post!:)

  • ISA 31/03/2006 at 00:35

    vou fazer por isso Maria, podes crer!

  • Mipo 31/03/2006 at 17:49

    Custou sem os parágrafos, mas foi! Épá e se o destinatário aparecer por aqui, caga nisso! Nós semos muitos – damos conta dele!

    Só uma coisa: posso passar a tratar-te por Bonga? :-)

  • ISA 31/03/2006 at 18:07

    Bonga is my middle name…

  • Zeka 02/04/2006 at 14:39

    Como é que é possível marcar 0.00 segundos, pá? Nem o Speedy Gonzalez.
    Há aí qualquer merda que não bate certo!

    Agora, depois de uma análise profunda a este texto, em que contei com a ajuda de eminentes psicólogos que fazem o favor de ser meus amigos, cheguei à conclusão de que temos que agradecer (ou atribuir culpas, tudo depende da perspectiva) a esse visitante misterioso pelo

  • sexaddict 02/04/2006 at 22:20

    Bem… Será que esu escrevo melhor? Não me parece….

  • ISA 02/04/2006 at 23:27

    Zeka querido, este blog n existe por causa desse visitante misterioso. este blog existe mto antes desse visitante misterioso aparecer na minha vida. o computador q uso pra escrever é que, qd mt, o devo ao tal visitante misterioso. e é uma sorte! o talento é meu mesmo, a inspiração n provem só, nem de perto nem de longe, desse senhor ou estaria bem tramada. bjs mil

    valeu sexadditc, bjs

  • ISA 03/04/2006 at 00:07

    qto aos 0:00 sgs, Zeka, é mta esquizofrenia… credo, deus me livre…

  • nana 18/04/2006 at 20:47

    gands testamnts mx ta fix. bjs

  • Diana 19/04/2010 at 00:43

    Caraca meu!!!!!!!!!!!

  • Isa 19/04/2010 at 00:49

    Tu nem imaginas o que aí vem, Diana… Nem imaginas…

  • bonifaceo 19/04/2010 at 01:38

    Que raio de comentários que eu às vezes escrevo (ou escrevia)… Quando comecei para ali a dizer que tinha recebido email e que o post era grande "na minha opinião". Credo!, deus me livre de tais escritos.

    Vamos lá esperar por o que aí vem.

  • Isa 19/04/2010 at 01:41

    :D :D :D
    Boni, tu já conheces o que aí vem. Provavelmente és a pessoa que me lê há mais tempo. De todas :) É um relacionamento virtual de longa data, o nosso ;)
    Bjo

  • bonifaceo 19/04/2010 at 01:56

    Hum… saberei?! :D
    A tua escrita mudou um bocado desde que te comecei a ler.

    A sério?! :)

    Beijos.

  • Isa 19/04/2010 at 02:02

    Sabes de certezinha, a não ser que fosse naquelas alturas em que andas desaparecido :D
    (são posts que não me lembro pq apaguei do blog e tive de os ir recuperar ao disco externo :D

    epá, mudou??? pra melhor, espero :P
    Bjo

  • bonifaceo 19/04/2010 at 02:18

    Eu não ando desaparecido, comento é menos e isso tem a ver com os temas, e isto sem ser em jeito de crítica, muitas vezes não tenho porque comentar, como quando é falar dos encontros do "núcleo da novela".
    Hum, por acaso, lembro-me que na altura gostava quando falavas do universo e querermos com força algo. :D
    Mas é preciso não esquecer que o ambiente que nos rodeia nos

  • Isa 19/04/2010 at 02:21

    caneco!!! olha, então és gajo pra gostar do que aí vem :D (apesar de já teres lido de certezinha).

  • Anonymous 19/04/2010 at 10:39

    Então e eu??!?!? Também te leio há muito!!!
    Estou curiosa com o projecto ultra-secreto…
    Achaste o moleskine??

    Bjs
    CA

  • Isa 19/04/2010 at 14:15

    :) Mas a ti conheço-te, o Boni é o meu leitor virtual mais antigo e mais constante ;)
    Não achei o Moleskine
    O PUS era o do pão :D
    Isto foi escrito em 2006… faz agora precisamente 4 anos, credo…
    Bjo

  • Anonymous 20/04/2010 at 15:43

    Que tótó… eu vi o @30Março 2006, mas acho que não assimilei.
    Que pena que o PUS seja o do pão… gostava que houvesse outro. ;)
    Bjs e saudades
    CA

  • Isa 20/04/2010 at 16:22

    :) infelizmente não há, Cat, mas não perdi a esperança de que venha a haver. O meu :)
    Bjo, querida, grazie ;)

  • maria madeira 01/07/2013 at 20:23

    Espectáculo. Palmas. Admito que me perdi lá pelo meio e tive de voltar atrás por causa da falta de parágrafos. Os parágrafos emprestam-nos uns milésimos de segundo para respirarmos, reflectirmos e… seguir em frente (eheh).

    Às vezes também me baralho (sou uma pessoa que se baralha com facilidade)quando leio "um gajo perde-se e tal". Nunca sei se quem escreve aqui é um homem

    • Isa 01/07/2013 at 20:28

      AHAHAHAHAHAHA, garanto que sou mulher :D

      É a única crítica que ouço de papai, a única coisa que me pede, é que não escreva: "um gajo…" aguenta palavrões, fúrias várias, tudo, menos que escreva: "um gajo…" deixei de o fazer, apesar de achar imensa graça à expressão, mas acabei por concordar com ele, quebra a poesia e, enfim, não sou gajo… :p

  • margarida 02/07/2013 at 04:32

    Sim, é para ti. (agarrar quem lê)
    Continua assim, a escrever sem espaçamentos, nós lemos na mesma, sem saltar linhas, até ao fim.

    • Isa 02/07/2013 at 14:13

      sua linda :)

  • Catarina M. 02/07/2013 at 15:33

    gostei mesmo! mas tive que esperar até ter tempo para ler com olhos de ler! porque é grande! para não me perder e ter que voltar atrás, fui selecionando pedaços de frases para quando tivesse que descer o ecrã não perder o fio à meada! =P

    tb os tenho (textos) assim, mas não publico, custa-me demasiado a exposição.

    • Isa 02/07/2013 at 15:43

      é bem fácil perdermo-nos, sim, mas eu adoro escrever assim, deixar correr a mão, sem filtros… é altamente libertador… E se bem me lembro este texto foi encurtado para metade, era de 4 páginas word… a minha incontinência verbal crónica não tem limites… e eu deveria ter usado mais travessões, fica mais fácil de seguir…

      quanto à exposição, ela deixa de constituir uma ameaça

    • Catarina M. 11/07/2013 at 22:33

      vou tentar!

    • Isa 19/07/2013 at 01:03

      you go girl :)
      [não consegui responder no teu blog… :s]

  • clara 04/07/2013 at 01:49

    Li até ao fim.
    Vou roubar umas linhas. Duas ou três frases. Verdadeiras, verdadeirinhas.
    Posso?

    • Isa 04/07/2013 at 01:51

      à vontade :)
      (depois de que tempos, acabei de postar no SL :) o teu post das saudades veio tão a propósito que nem queiras saber…

    • clara 04/07/2013 at 02:02

      As saudades e a conchinha ;)

    • Isa 04/07/2013 at 02:04

      :))) fizeste-me sorrir agora.
      Exatamente, foi exatamente isso. Escrevi o comentário da conchinha e nessa noite ou pouco depois, tunga, sonho… Olha…

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