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Estive numa sala entre milhões de crianças e livros e sobrevivi

12/01/2015

Fiz pela primeira vez na vida, pelo menos conscientemente e de livre e expontânea vontade, trabalho voluntário, na biblioteca da escola do meu sobrinho mais velho, que por sinal é a mesma de uma priminha dele, para que a criançada introspetiva possa ter um lugar que a acolha no intervalo do almoço, sem ter de se sentir excluída por não jogar à bola, ou forçada a fazê-lo mesmo não gostando, just to fit in.

É muito engraçado ver como são todos diferentes, mas todos estão ali para ler, para ficar um bocadinho com eles e com os amigos. Os mais quietos, a miúda mais bossy, é óbvio que me veio logo cair na rede e pôs-me logo a ler-lhe uma história, apesar de ter 7 anos e falar perfeita e claramente tudo, “mas se formos nós a ler demoramos muito tempo”, os livros que escolhem para ler, o serem tão diferentes as escolhas dos meninos e das meninas e quando não são ser mais giro ainda. O miúdo que me perguntou se havia uma folha onde pudesse escrever, nem que fosse buscá-la à China, e que deixou o poema que esteve a copiar em cima da mesa, que era lindo, por sinal. O outro que ia fazer uma entrevista, deixou a folha em cima da mesa, já preenchida, e foi jogar à bola. Como já são, de certa forma, o que serão. A personalidade estar ali, o jeito de cada um, as bocas abertas e os olhos espantados, a ouvir tudo, a perceber tudo, a puxar pela cabeça para responder, a assumir que não sabem, a saberem tantas coisas já… As miúdas do terceiro ano todas sentadas a ler, cada uma o seu livro, completamente imersas nas histórias, sem as largarem mais, quando dissemos que tínhamos de ir embora, responderam: mas nós só temos aulas às duas e 45, percebo-as tão, tão bem… O serem muito mais meninas que meninos. O que entrou com o seu próprio livro e, quando percebeu que não estávamos a deixar entrar mais ninguém – porque o caos estava instalado e a moçada tem dificuldades em se decidir, a maioria, – ia sair e disse: eu volto, eu volto. Jamais te deixaria lá fora, meu querido.

Estou no meio das palavras, o meu habitat natural, em casa, portanto, e no meio de crianças, do primeiro ao quarto ano, pela primeira vez, com tantas ao mesmo tempo, com as quais o contacto é uma experiência e tanto, que me obrigam a ser todas as partes de mim, no mesmo espaço, quase ao mesmo tempo, à frente de toda a gente.

Agora resta-me convencê-los que correr e falar alto é lá fora…

O ganho não é material, nem sempre os maiores ganhos são materiais, mas será certamente um euro-milhões emocional.

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  • Elaine 13/01/2015 at 10:00

    Que coisa mais inusitada, vindo de você – não pelo voluntariado, mas pelas crianças :). Adorei a experiência, porque você descreveu tão bem que vi até as carinhas.

    • Isa 13/01/2015 at 10:58

      cara, tu conheces-me… :)
      É a biblioteca da escola do meu sobrinho, a mãe dele mandou-me o mail que a escola reenviou a saber se havia pessoas disponíveis para assegurar a hora de almoço, porque a bibliotecária vai almoçar e tem de fechar a porta, houve imensa gente que se disponibilizou eu incluída, livros, né? havias de ver a cara das miúdas: e agora, quando abre? sério, deu-me logo vontade de abrir o bagulho todos os dias…

  • joana 13/01/2015 at 12:45

    Parece-me uma bela experiência. No próxima dia já terás lá o sobrinho.

    beijinhos e obrigada

    • Isa 13/01/2015 at 12:49

      vai ser muito boa, tenho a certeza. A priminha também não apareceu :D

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