Livros, Me and Mr Freud

Eu e o Sr. Freud

17/10/2016

O Saraiva disse uma vez que as mulheres liam para se evadir. Mal sabe ele que não precisamos de entrar no mundo interno alheio para tal, basta-nos o nosso, sem sequer termos de recorrer a alteradores de consciência, apesar de estes nos abrirem a porta que nos permite ir um pouco mais além.

Evadimo-nos na vida de todos os dias, à espera do metro, no trabalho, à noite, na cama, enquanto assistimos a novela e a tomar café. A jantar com a família, a ver anúncios de manteiga, de leite e de comida pra cães, nos silêncios aos quais nos votamos, no meio da rua, imaginando-nos com o rosto que tínhamos aos 20 anos, a cabeça dos 40, o corpo dos 30, um cabelo maravilhoso, sem fios brancos, mas com a cor que lhe demos agora, e que é nosso, como não? Nas conversas com os demais seres da nossa espécie, principalmente os do mesmo género. Também nos evadimos quando em contacto direto com os seres do sexo oposto, enquanto ouvimos um gato com o mesmo nome que tu a falar sobre a política local, que me interessa tanto quanto “a influência dos raios gama no comportamento das margaridas”, mas ele é giro, tem um sorriso lindo e um tom de voz de homem, não tanto quanto o teu. Fui eu quem fez a pergunta, para conseguir olhar pra ele com motivos aceites pelo mundo coletivo e evadir-me à vontade, enquanto aceno com a cabeça em sinal de concordância.

Evadimo-nos e não é pouco, o Walt Disney toma conta de nós, deixe-me continuar, Dr. Freud, e a nossa cabeça voa além das montanhas da Áustria – onde a Julie Andrews cantava com voz de passarinho esganiçado – sabe deus pra onde, talvez até à velhice, de cabelos brancos, sorriso bonito, olhos brilhantes, sentada numa cadeira de baloiço, à lareira, a contar histórias com finais felizes, como num anúncio de chocolates no Natal, ou no início do “Eduardo Mãos de Tesoura”, com neve e tudo. Só falta mesmo o Eduardo… In: Eu e o Sr. Freud

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