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Eu vejo-te

07/09/2015

No sítio onde faço caminhadas higiénicas, já por mais do que uma vez passou por mim uma rapariga, imagino que seja rapariga, que deve pertencer àquela seita que diz que não se pode apanhar sol, porque caminha totalmente tapada, dos pés à cabeça, por uns panos verdes completamente sem graça, que não deixam adivinhar quaisquer formas, nem mesmo a do nariz. Cruzamo-nos e seguimos em direções opostas. A cabeça dela nunca se move, anda direita, com os olhos em frente, como se fosse um robô. A única coisa que mexe são as pernas e os braços que, involuntariamente, acompanham os movimentos que faz para se deslocar. No outro dia, ao fazer o caminho da volta, olhei por acaso para umas escadas e lá estava ela, completamente imóvel, de frente para o mar e de costas para quem passa. E pensei que esta é talvez a forma mais triste de solidão. A solidão protege-nos, sempre, de algo externo a nós que nos atemoriza. E, no caso desta rapariga, que apenas se deixa ver como um fantasma de óculos escuros, mas que vê tudo, que apenas se deixa tocar pelos panos que ela própria escolheu, mas não pelos raios de sol ou pelas rabanadas de vento, nem mesmo pela água do mar, das melhores sensações que tive ultimamente foi a de sentir a água do mar de uma praia deserta de Tróia, de um frio perfeito, a tocar-me na pele, que quer ver o mar e se senta de costas, relativamente exposta para que seja vista, sem querer ver ninguém, isolando-se o suficiente para não deixar que os olhares de estranhos que a encaram percebam que os encara também, é impressionante a frequência com que somos olhados por desconhecidos, e os olhamos, que quer desesperadamente ser notada sem se mostrar, pelo contrário, escondendo-se, chamando muito mais a atenção para si do que se estivesse vestida como toda a gente, inclusive de pernas, barriga e braços à mostra, a solidão não apenas a protege, torna-a inacessível, inatingível, impenetrável e completamente isolada da vida, que nos é dada todos os dias pelo sol, que procura e do qual se protege. A pior solidão é a que não se deixa tocar.

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