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Fantasia vs Vivência

29/08/2015

Viver uma fantasia na nossa cabeça é como se o objeto de projeção da nossa fantasia não tivesse opinião, vontades, gostos ou preferências, emoções ou sentimentos. É uma coisa distante, que fica lá longe, nem sequer sabemos de onde vem, na maioria das vezes. É como se fosse um robô, a quem damos ordens e ele obedece, por isso só funciona na nossa cabeça, na nossa imaginação, onde podemos ser e fazer o que quisermos. Fica no plano da ideia, que é um ótimo plano, mas não funciona. Na vida prática, há alguém do lado de lá que diz que não, isso não, mas isto sim.

O problema da fantasia é ser uma fantasia e, por isso, não ser exatamente o que queremos de uma forma constante, mas o que queremos porque não temos, ou porque é o que está na nossa zona de conforto, não sei o que é pior…, tornando-nos quase obsessivos. E quando eventualmente podemos, concretizamos e vivemos a fantasia, constatamos que já não chega, que afinal não era bem aquilo, e o objeto da fantasia fica sem perceber o que queremos afinal, se não foi por ser capaz de levar a fantasia adiante que o escolhemos.

A fantasia que é concretizada vira desilusão, sempre, nada nunca é melhor do que o que idealizámos. Já a vivência de uma experiência possível pode tornar-se uma ótima surpresa. Primeiro porque é vivida, que é a parte má da fantasia, nunca é trazida para o terreno e quando é, já sabemos o que acontece, e depois porque nos surpreende, sempre, normalmente pela positiva, já que dela não esperamos grande coisa.

É o mesmo que ficar a olhar para o mar e imaginar como seria bom estar lá dentro, com a temperatura assim, as ondas assado e a corrente cozido, e entrar lá dentro e ver que afinal a água está um bocado mais fria do que idealizámos, as ondas até estão maiores do que queríamos e o mar está a puxar, porque a maré está a vazar, mas a experiência ser incrível, simplesmente porque fomos lá, experimentámos e até nos surpreendemos, afinal, a temperatura perfeita era aquela, de tal maneira que ficamos lá dentro muito mais tempo do que o tradicional mergulho e adeus, a brincar nas ondas, coisa que não fazíamos há séculos e que era exatamente do que precisávamos, sentíamos falta e queríamos, e nem sequer tínhamos disso consciência. A vivência dá o que a fantasia jamais conseguirá, a sensação, que é o que nos faz decidir o que queremos e não queremos na vida. O que nos serve e não nos serve, muito mais do que o pensamento, o intelecto, a ideia. As nossas sensações não mentem, nunca, não disfarçam, não iludem, jamais, porque são sentidas pelo corpo. Já o cérebro e o intelecto… lá está, estão sujeitos à fantasia…

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