Feira do Livro, Autores e descontração natural.

30/05/2016

Não queria dizer isto porque parece que me sinto a maior da minha aldeia por conhecer pessoas. Mas vou dizer, porque foi especial, é sempre muito bom conhecer pessoas que são pessoas, normais, e tal. E porque, cada vez mais, acho que é destas pessoas que se deve falar.

No ano passado, e não por falta de convite, não pude comparecer ao lançamento de Arquipélago. Este ano, falhei miseravelmente o lançamento da Vida no Campo. Andava há que tempos para comprar os livros, alguns, pelo menos, de alguém de quem já gostava imenso de ler. Ontem, quis ir à feira do livro especificamente para apanhar o Joel Neto a jeito e lhe sacar uns autógrafos catitas. Enfrasquei-me em analgésicos para aguentar as cruzes e lá fui. Não fosse o meu querido amigo e não haveria registo. Nunca me lembro destas coisas práticas, fico ali a curtir o momento, foi para isso que lá fui, e tenho tendência para o guardar só para mim, para o manter entre os intervenientes. Felizmente, nem toda a gente pensa assim.

Este foi o momento em que me apercebi de que ia tirar uma foto, dizendo: finjam que não sabem que estou aqui. E que eu disse: vê lá, agora fiquei intimidada. Não sou dos holofotes, não há nada a fazer. Felizmente, ele insistiu e conseguiu outra em que ficámos os dois ainda mais giros, moléstia à parte. Estou aqui carregadinha de livros para ler e encantada da vida com o autor. Quando for grande, quero ser assim, ter este nível de coolness, de humanismo, de serenidade, de generosidade, uma generosidade sem tamanho para com a sua fellow author.

joel e isa

Ainda não refeita do momento, deixámos o Joel com os restantes fãs e fomos à nossa vidinha. Quando o meu amigo repara no José Luis Peixoto, se não fosse ele, eu teria passado sem reparar, consigo ser a pessoa mais aluada do planeta, o que teria sido uma pena. Ao mesmo tempo que me dava conta que ele, o José Luis – o meu amigo já tinha percebido desde o dia em que nos conhecemos – era giro que se fartava, este meu amigo agarra no livro dele, sobre a Coreia do Norte, que andava para comprar há imenso tempo, e não é tarde nem é cedo, prepara-se para lho passar, ao autor, para um autógrafo básico. Estava ali na presença dos dois únicos portugueses que foram à Coreia do Norte. Entretanto, achei que se calhar era melhor o meu amigo ir pagar o livro, enquanto eu ficava ali para garantir a cena. Quando vejo que o Zé Luis, vá, vou chamar-lhe assim, se preparava para se ir embora. Eu e o meu amigo fazemos uma boa dupla, é a conclusão a que chego. Diz-me para não o deixar ir e eu não faço mais nada, quase me agarro ao homem ali mesmo, vontade não me faltou. Lá lhe disse, não se vá embora. Eh pá, tenho de ir, num tom e com um ar tão, mas tão cool, que me pareceu que éramos amigos há não sei quanto tempo, e foi assim que me senti, parecia que não era eu, ao mesmo tempo, era a coisa mais natural do mundo. Vai daí, continuei. Mas o meu amigo está ali com um livro seu, é só pagar. Está bem, vou lá ter. Eu fui para o palanque da Porto Editora onde estava o meu amigo na fila para pagar, ele a não acreditar muito que o homem fosse ter connosco, eu a acenar do palanque, num grande adeus, tipo, estamos aqui, o homem a dirigir-se a nós, prega-me um par de beijos, que giro que ele é, apesar dos 450 pierces que tem na orelha direita, para as dores deve ser uma maravilha, deve funcionar como as agulhas de acumpuntura, dá um aperto de mão ao meu amigo, ali ficam os dois a falar, eu ainda mandei uma boca qualquer dando a entender uma cena psicológica que já não me lembro, o autor ficou caladinho, percebi que de alguma forma o constrangi, calei-me bem caladinha e fiquei a olhar para ele mais um bocadinho. Como é óbvio, nunca mais me lembrei da cena das fotos muito menos fui capaz do mesmo gesto de generosidade que o meu amigo teve para comigo, o que é lamentável, o Zé Luis é mesmo giro, queria posar com ele para a posteridade. E com isto conseguiu que me apetecesse ler os livros dele, um deles já li, não me lembro do título, já foi há imenso tempo, e foi este meu amigo quem mo deu.

Voltámos à Presença e eu, que tinha deixado de lado o atirar de umas coisas para ganhar livros de borla, por sugestão deste meu amigo, lá me expus a largar uns discos de papel numa tômbola. Parecia que toda a vida tinha tido cara de pau, não sei o que me deu, tinha deixado de fumar há mais de um dia e estava com um speed do caneco. Mais uma vez, não era eu, mas era a coisa mais natural do mundo. Fiz-me lembrar muito o meu pai… Os livros que me calharam foram um sobre uma mulher e um tigre ou lá o que é e o outro não me lembro, acho que era juvenil, contra o que reclamei logo ali, ao mesmo tempo que pensava: o que é que faço com isto agora? Porque o único que me interessava era o Kama sutra e foi esse que o miúdo me deu, depois do meu amigo dizer: troca.

Tudo isto para vos dizer o seguinte: a descontração é a alma do negócio; nem todos os escritores são feios, eles os há bem giros, como os dois, três, vá, eu também, de que falo aqui, somos bicho do mato, mas conseguimos falar normalmente com as pessoas, mesmo com imenso sucesso, os escritores são pessoas normais e graças a deus nem todos têm o estigma do Paixão, vi-o uma vez no 5 para a ameia noite, com um boné enfiado na cabeça, que estava enterrada nos ombros, e o gajo mal olhava para o entrevistador, e que se é para ser assim que se fique em casa. Por mais introvertidos que sejamos, por mais que estejamos melhor entre os nossos, por mais que tudo, somos gente, e a parte melhor é chegar ao ponto em que nos libertamos da personagem. Ficamos muito melhor na fotografia, muito melhor.

Não ia à feira do livro desde 2009, acho que o saldo foi positivo. Obrigada aos três, aos autores e ao meu amigo, que só não é autor porque não quer.

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