Livre

Feira do Livro

04/09/2022

As minhas últimas vezes na Feira do Livro foram mais para ver o Joel do que para percorrer todos os stands possíveis, como dantes.

Já à época, nos idos de 2018, talvez, me pareceu que havia mais comida do que livros. As tendas de comes e bebes, mais estrangeiros do que nacionais, estavam, mais coisa menos coisa, todas juntas.

Ontem, informada por amiga paulista, que sabe mais do que se passa em Portugal do que eu, que o João Pereira Coutinho estaria lá, às 4 da tarde, lá fui.

À medida que me aproximava, comecei a antever o pior.

Verdadeiras romarias para atravessar a rua, na Praça do Marquês, não permitiram qualquer tipo de ilusão. Iam todos para lá.

As barracas de comida eram mais e maiores, com esplanadas imensas cheias de gente.

A Feira do Livro deixou de ser uma oportunidade para comprar livros, e dicionários, a bom preço, para passar a ser programinha de família. Um inferno. Nunca tantos livros foram roubados, como este ano, de certeza. Os miúdos que circulavam com t-shirts laranja, de uma das editoras, não teriam como controlar toda a gente. Era só querer. Curiosamente, não vi ninguém fazê-lo.

Cheia de gente, calor, impossível circular nos corredores, um caos para pagar nas editoras maiores: Leya e Penguin.

Esta sim, uma agradabilíssima surpresa. Adoro a Penguin. Tem os clássicos todos ao preço da chuva. Quase todas as minhas Jane Austen eram Penguin. E digo eram porque as doei, quando comprei uma Edição Especial, com folhas de Bíblia, de cinco dos seus livros.

Doei os que já tinha a uma miúda que irá lê-los.

Havia imensos stands da Penguin, dois balcões para pagar, nos topos, com indicações de entrada e saída, com três pessoas, e caixas, por balcão. Filas à espera, dos dois lados.

Somos tão bons a arranjar formas de pagar, tiveram que vir os Brits armar confusão.

A Leya estava igual, deve ser uma questão de utilização do espaço e concentração de consumo de energia em dois espaços. Em vez de um por stand. As barracas de comida gastam seguramente mais do que os multibancos.

Chamem-lhe logo Feira, e pronto. E mudem os livros para outro sítio.

É esta comercialização de tudo, inclusive do que é sagrado ou não se vende, que faz que jamais me habitue a este mundo.

Como a magia da arte.

O objeto tem um preço, mas o que provoca em nós é impagável.

Ainda assim, justificaria tanta gente?

Rapidamente descobri porquê. Não sei quem vi primeiro, se o RAP se a Duquesa de York, de seu nome Sarah Fergunson, Fergie, para os amigos. Tinha uma fila gigantesca de mulheres, atrevo-me a dizer, em vez de pessoas, à espera de um autógrafo, no mais recente livro da Duquesa, não faço ideia se já escreveu outros. Sequer sabia que escrevia.

Na Tinta da China, a fila era grande, também. O Ricardo Araújo Pereira não tinha mãos a medir. Igual a ele próprio. Comprei um livro que toda a gente sabe que foi ele que escreveu, embora este não o assuma. E fui à procura do Coutinho. O stand da Penguin não tinha clássicos. Ou não os vi.

Comprei dois livros dele, crónicas da Folha e O Diário da República, 2015-2022. Muito há de passar-me ao lado, porque datado. Sabendo de antemão que vou rir-me.

Lá estava ele, a assinar livros.

Agora, os leitores têm de conversar com os autores. Acho um horror. Está o autor e uma cadeirinha. Estranho. Pela parte que me toca, só estou ali pelo livro. E por um bocadinho da sua presença. Queremos estar perto dos que admiramos, a nossa fé no poder da osmose é comovente.

Se é verdade que it takes one to know the other, o que me dá sempre muita esperança de redenção. Não sabendo nós que preço paga o outro pela sua gentileza e empatia. É preciso caminhar para lá chegar. E praticar. Ainda que, muito seja mais profundo do que uma simples mudança de ângulo do ego.

Já no caso de autores mais populares, como o RAP e a Duquesa, a solidão é o padrão.

Lamentavelmente, tive vergonha de lá ir. Fui-me embora. Voltei à Penguin, comprei um livro, à Gradiva, voltei atrás para dizer ao RAP que estava quase tão concorrido quanto a duquesa, mas ele também já tinha fugido.

E assim, também eu, com um saco de pano ao ombro, tenho em mim todos os sonhos do mundo, uma sombra do Pessoa, publicidade à editora a quem paguei 3€ pelo saco, e quatro livros lá dentro.

Em português.

Pois, de tanto falar, ler e escrever em inglês todo o santo dia, já quase não sei escrever na minha língua materna. Preciso de ler. Coisas bem escritas. Ou bem traduzidas.

Por isso, comprei o livro da Penguin (que, afinal, é da TopSeller), pelo título, claro. 

Naturalmente, pelo parque, meio bosque. Ao caminhar, ia vendo alguns introvertidos ao longe, todos a uma distância perfeita uns dos outros.

Só um introvertido para saber o grau de distância aceitável, o do espaço pessoal.

O que, na verdade, é básico: não nos ouvirmos uns aos outros, entre estranhos. Como seria de esperar, todos sozinhos, exceto uma mãe com um bebé. E eu. Que parei um bocadinho para ler, antes de enfrentar as escadas até lá abaixo.

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