Flores na cabeça

03/06/2016

Não sei se é dos choques elétricos, se do cânhamo, se de estar com a cabeça e o corpo no mesmo sítio, se de fazer o que quero e não me contrariar em nome da sacrossanta persona e do diabólico coletivo, se do que é.

A verdade é que sempre fui compulsiva. Associava esse comportamento ao meu pai e ao meu avô, ambos compulsivos com alimentos pequenos, tipo uvas e amendoins. Ambos fumadores. O meu pai era calmo, do meu avô não me lembro, mas não tenho ideia de ser nervoso ou stressado, pelo contrário. Dizem-me os meus tios que o meu pai tinha o feitio muito parecido com o do meu avô e, se assim era, dificilmente seria mal-disposto. Não conheço pessoa mais bem humorada e com uma capacidade incrível para brincar com quase tudo do que o meu pai. Tinha acabado de fazer 9 anos quando o meu avô morreu e infelizmente convivi muito pouco com ele. Morava em Braga, no tempo em que não havia autoestradas, as viagens eram feitas pela estrada nacional e levávamos 6 horas para lá chegar, já contando com as vezes que tínhamos de parar no caminho para eu vomitar.

Sou compulsiva, ou era…, com chocolate, alimentos pequenos, tipo M&M amarelos, amêndoas, cajus, pistachios, nem o facto de ter de os descascar me demove, e cigarros. Não fumava desesperadamente, tipo aquelas pessoas que esmagam os filtros ou os deixam molhados, o que sempre me meteu nojo, mas fumava muito, uns atrás dos outros, com copos, parava de contar, não valia a pena. Fumava doente, de ressaca, depois de ter fumado dois maços na noite anterior, com dores de garganta, cheguei a fazer furinhos em cigarros para conseguir fumar, fumava de manhã, uns dois ou três logo de seguida, depois do café, se não havia café ou comida, fumava na mesma. Fumava sem dar por isso, sem consciência alguma. Era este o nível…

A compulsão é um monstro que mora na nossa cabeça e que age à revelia de tudo o resto. Toma conta do leme e quando damos por nós, o chocolate, seja de 100, 200 ou 500g que estava ali à nossa frente, desapareceu a uma velocidade supersónica. Só damos por isso quando ficamos mal dispostos, mas aí já é tarde, o desastre já se deu. Às vezes, acontece parar um bocadinho, só até recuperar do enjoo, no entanto, o mo é: enquanto houver, não se descansa.

Não há qualquer controlo mental sobre a compulsão, o TOC, o transtorno obsessivo compulsivo, é disso o melhor exemplo. Racionalmente, sabemos que já estamos limpos, ainda assim não conseguimos deixar de o fazer, de nos limpar até que a pele nos caia. O TOC caracteriza-se por uma série de comportamentos que supostamente precisamos de adotar para nos sentirmos seguros, tipo fechar a porta três vezes, alinhar objetos, ordenar coisas e tal. Não tenho TOC, mas desde que me conheço que sou compulsiva. Só que a minha compulsão sempre foi por comida ou cigarros, não por compras ou comportamentos. À exceção dos livros, também sou leitora compulsiva, compulsão essa mais controlável e muito menos prejudicial.

Acontece que, desde que levei estímulos elétricos para deixar de fumar, isso acabou. Era o que mais temia, a compensação, o descontrolo, não aconteceu. E esse é o milagre deste método. Sem nicotina, ficava capaz de matar cães a grito, completamente descontrolada. A comer tudo quanto me aparecia à frente, em quantidades generosas, logo eu que não sou de comer muito, de grandes pratadas.

Zero vontade de doces, zero. Bem sei que o açúcar é viciante, tanto quanto o pó, já ouvi dizer, e que o pior é como o coçar e o trair, é só começar. É científico mas não resulta. Já fiquei sem consumir doces uma semana e há um dia em que como pela semana toda, o que deita por terra a teoria da força de vontade. Basta um momento qualquer do que for que baixe a guarda do ego, e é facílimo isso acontecer, para o monstro tomar conta da ocorrência e fazer o que quer comigo.

De repente, dei por mim a associar ao cânhamo, que consumo em sumos, saladas, chá e onde calhar. Fumado não dá, causa uma ansiedade desgraçada, deve ser do THC, e o efeito é exatamente o contrário, também conhecido por munchies. Consumo cânhamo em sementes, cânhamo esse que contem todas as proteínas de que precisamos. Talvez haja estudos que confirmem isto, o consumo de proteína associado à saciedade e por isso à não necessidade de ingestão de açúcar.

Se descobrir que é dos choques elétricos, estou aqui cheia de ideias para acabar com comportamentos autodestrutivos. Pelo sim pelo não, vou continuar a consumir cânhamo. Já não me agarro ao terço com o fervor de outrora, mas continua a haver, cada vez menos, mas ainda há, picos de agitação, só que nenhum me dá para comer como se houvesse fome no mundo e eu precisasse de garantir reservas. Os momentos em que penso: agora era o momento em que fumaria um cigarro vão rareando e esta é a grande diferença, deixou de ser obsessão, os cigarros e os doces já não me dominam. O que me dá é para fazer coisas, nunca a louça esteve tão em dia nesta casa como agora. Com o cânhamo, a agitação é controlada e está dentro dos limites normais. Foram as únicas alterações radicais que houve na minha vida na última semana, apesar de cada vez estar mais centrada, com a cabeça e o corpo a funcionar em parceria e as emoções a terem a sua dose de atenção. E os resultados também vêm do investimento a prazo a perder de vista. É como a Primavera, não a vemos atuar, faz tudo no escuro, no sub-solo, até ao dia em que o hemisfério norte inteiro floresce. Connosco acontece o mesmo, ao fim de anos e anos de investimento, flores começam a nascer-nos na cabeça e rosas a crescer-nos no coração.

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