Futebol, política e religião.

17/05/2016

À hora a que 80% da população portuguesa estava colada à TV a ver a bola, eu estava num templo budista, a nutrir pensamentos pecaminosos pelo monge que estava a falar. Era um rapazinho que não aparentava mais de 30 anos, com uns olhos de um azul escuro profundíssimo, um sorriso lindo e uma voz bonita. Não me concentrei muito na meditação, mesmo de olhos fechados, prefiro fazê-lo sozinha, sem distrações de maior. O mocinho, que era espanhol, antes de abraçar o Buda, frequentava concertos de rock e hard rock. Foi-me difícil imaginar aquele rapaz zen, tranquilo, lindo de morrer e com as mãos mais bonitas que vi nos últimos tempos, a gritar e a fazer moches e dei por mim a pensar o que levaria alguém com aquele palminho de cara a abdicar dos prazeres morais e imorais para abraçar a vida monástica. Entendo-o bem, também vivo para ampliar a consciência o mais que puder enquanto cá estiver, mas os prazeres ninguém me tira. No fim, fomos dar voltas ao templo e começou logo ali uma espécie de discussão sobre se o Budismo é uma religião ou uma filosofia. Tal como o cristianismo, prega-se o amor, recorre-se a alguém que é um mestre e que não vemos, em quem apenas acreditamos, usam-se objetos que se assemelham aos terços e dezenas dos católicos, veneram-se imagens e reúne-se em templos, como os católicos, que lhes chamam igrejas. Uns repetem mantras, outros rezam, ambas são meios de conexão com algo maior do que nós. Ambos pregam a abdicação dos prazeres. As monjas budistas rapam o cabelo, como os homens, por causa da vaidade, uma forma de alienação como outra qualquer. E eu bem vi o mocinho a olhar para dentro do templo, e a desviar os olhos quando sentiu alguém olhar para ele, as tentações são o diabo e estão em cada esquina, dentro dos templos, inclusive… Começámos por cantar e agora é isto, sempre que ouço cantar numa igreja, aquelas vozes sem alterações, apenas unidas pela fé, dão-me para chorar. No batizado dos filhos de uns amigos meus, um mês e meio depois de o meu pai se ter ido embora, chorei copiosamente durante toda a cerimónia, as três moças que tocavam harpa, violoncelo e órgão faziam-no primorosamente. A fé, a união do coletivo pelo mesmo amor, mexem comigo mais do que nunca. Não o templo, não como mexe o espaço das igrejas. O meu inconsciente coletivo é católico, a minha família é católica, no meu país, a tradição é católica. E é isso que mexe comigo. Não vou à missa a não ser para rituais e as minhas conversas com deus não precisam de intermediários. Não rezo, aquelas palavras não me dizem nada, não repito mantras, pelo mesmo motivo, mas medito casa vez mais, com benefícios e resultados incríveis… E passo as continhas dos “terços” budistas entre os dedos, acalmam-me imenso e dão uns colares e umas pulseiras lindos. Ainda me lembro duma certa modinha de terços pendurados ao pescoço… Até a Madona os usou, se não me engano…

A religião é uma forma de nos conectarmos com o que nos é mais precioso e é um ato de humildade, de vulnerabilidade, que não deve ser questionada muito menos condenada. Se é preciso recorrer a um deus para nos conectarmos com o mais bonito de nós, assim seja.

Os meus amigos mais chegados e mais antigos são todos ditos de esquerda, um bando de comunas. Alguns até descem a Av. da Liberdade no 25 de Abril e tudo. Eu nunca votei, nem votarei, à esquerda do PSD, tendencialmente voto CDS e nas últimas eleições votei PPM. Nunca me chateei com nenhum deles, muito menos deixei de lhes falar, por divergirmos politicamente. Mas na internet, no twitter e na blogosfera, já deixei de seguir uma ou outra pessoa por ser mono-temática em relação a algumas coisas. Quando me cheira a obsessão e isso vira tema único, defendido com cegueira e quase esquizofrenia, principalmente quando se materializa numa ou noutra pessoa, bloqueio, por motivos de saúde, antes de ter um ataque cardíaco. E pessoas que até considerava e achava bastante razoáveis deixaram de me seguir no twitter pelas minhas opiniões políticas.

Tenho imensos contactos brasileiros no meu facebook, uns muito próximos, outros nem tanto. O atual momento político do Brasil é de tensão. Tenho lido as maiores barbaridades e assistido a momentos de verdadeiro descontrolo por causa da política, dos pró e anti PT. Já não os posso ouvir, a discussão não me diz grande coisa, tenho a minha opinião, que é racional e lógica, mas nem a manifesto. Não quero contribuir para aumentar a confusão e nem sequer adianta. Não pactuo com demagogia e cegueira generalizada. E acho tudo uma loucura. Depois lembrei-me da minha reação quando uma amiga juntou Sócrates e Soares na mesma frase. Pior do que ouvir um dos nomes, só ouvir os dois… Se há gente que me tira do sério é essa. Tenho um problema sério com gente que vê na democracia uma oportunidade para abusar do sistema, se servir dele, como repudio em absoluto um sistema que abusa da condição de fragilidade individual dos seus cidadãos, é melhor nem começar…

A identificação com um partido ou uma causa política é muitas vezes associada à identidade de alguém, é o que o norteia, para o manter no trilho, é o que o faz sentir que pertence a algum lado. A pertença é uma necessidade básica do ser humano e não pode nem deve ser abalada. Não adianta discutir, os princípios que estão na base são invioláveis para quem os defende e o símbolo que os representa é um partido, uma cor, uma suposta ideologia política.

Os meus amigos mais chegados e mais antigos são quase todos do Sporting, exceto dois. Alguns, sportinguistas doentes. Não há encontro em que não falem de bola, continuam todos a falar uns com os outros. Mas leio coisas inenarráveis de adeptos de um e outro clube, ofensas de bradar aos céus. A irracionalidade corre solta no futebol… Não podia estar mais a borrifar-me para o campeonato nacional, nem sequer aos jogos dos grandes assisto. Em teoria, sou benfiquista, acho o Sporting e a fé dos seus adeptos bonitinha e queria que o Braga ganhasse… Mas se o Sporting ganhasse o campeonato, ficava contente, pelos meus amigos, pela minha tia, irmã do meu pai, que ainda vou ver com uma madeixa verde e que é Sportinguista roxa. Depois de o Sporting ganhar um campeonato ao fim de quase 20 anos, celebrei com eles, não gritei pelo Sporting, mas bebi uns canecos valentes à conta disso. E nada nem ninguém me tira o prazer de ver os meus queridos amigos sportinguistas felizes, nada nem ninguém. Gosto de futebol, bom futebol, e desde que descobri a corja que está por trás dos clubes que me deixei disso, não vejo, não estou nem aí. Mas vejo todos os jogos do Mundial e do Europeu, todos. Já estou aqui em ânsias pelo EURO16 e tudo… Lembro-me com particular saudade de estar em casa dos meus pais num Mundial qualquer e chegar à sala e dizer ao meu pai: põe na bola, vai dar a Polónia contra os Camarões. Resposta dele: estás doida de todo… Já não há Sport TV lá em casa desde que ele se foi embora, não sei como isto vai ser, não me apetece nada expor-me perante os ogres que veem bola em tascas… Viro bicho, digo mais palavrões do que um camionista e tenho apoplexias nervosas a ver a seleção nacional de futebol. Já para não falar na paixão assolapada que nutro pelo Cristianinho, ai de quem me diga mal dele… Para cada crítica que lhe fazem, tenho um argumento que a contraria ou a explica, nem vale a pena…

Os clubes de futebol, tal como os partidos políticos, são uma forma de pertença, representam muitas vezes um ideal, vejo muito isso nos meus amigos sportinguistas, têm até caraterísticas comuns, que não deve ser questionada, não muda, não vale a pena. Não há racionalidade que combata um amor a um clube.

É por isso que futebol, política e religião não se discutem. É uma questão de respeito pelas crenças, pela identidade, pelos valores, pelos princípios alheios. E se não nos unem a religião, o futebol ou a política, que nos una o amor que temos uns pelos outros, a nossa história. É isso que é mais forte que tudo.

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