Livre

Grounding

08/03/2017

A Natalie, e penso que a Julia também, usa muito a palavra grounding, para a qual tenho algumas dificuldades em arranjar correspondente. Enraizamento parece-me um pouco aquém.

Ground quer dizer chão, terra.

Sugerem que, quando estamos ansiosos, recebemos uma crítica não boa, a nossa cabeça vagueia por aí, o nosso crítico interno, a nossa mente-macaco nos perturba, o remédio é grounding.

Não se trata apenas de descer à terra, resgatar raizes, arranjar maneira de não deixar que a nossa cabeça se arraste para o vórtice, o ponto de não retorno, o abismo.

Mas de nos conectarmos connosco, inteiros.

Muitas vezes falar só não chega. Dizer ao cérebro para parar, pensar noutra coisa, pedir ajuda mental a alguém, que fique connosco, nos mantenha com os pés no chão, mesmo que o balão que é a nossa cabeça insista em querer subir. Às vezes, é preciso um gesto que nos mantenha no controlo. Não dos outros, da situação mas da nossa mente, dos nossos medos, dos nossos monstros pessoais e intransmissíveis.

grounding

Há quem lhes chame âncoras

Gosto da imagem, uma âncora é o que impede um barco de ir à deriva, se perder pelos oceanos, ficar à mercê dos monstros marinhos, da fúria de Poseidon.

Quando fumava, até mesmo eletrónicos, dava por mim a fazê-lo com muito mais frequência do que propriamente por vício de nicotina. É conhecido de todos o chamado vício de mão. O cigarro eletrónico também cumpria essa função. Por isso há tanta gente que não se aguenta nas pastilhas e nos pensos, apesar de ter a nicotina garantida no organismo.

E são vários os motivos que levam à ansiedade

A ansiedade pode ter a ver com desejo de controlo, mas por trás deste há sempre um medo do abandono, de perder a ligação, o vínculo, a conexão. Na verdade, a conexão connosco mesmos, que associamos aos outros por sermos seres relacionais.

Para os introvertidos, basta que a interação social dure umas horas. Que estejamos ao ar livre, com muita gente em volta. Ou num sítio onde não nos sentimos confortáveis, em conversas que não nos dizem nada, em situações em que sentimos que já deu.

O grounding vem precisamente da necessidade inconsciente de nos conectarmos connosco e com o que queremos de facto fazer. Em vez de nos deixarmos levar pelo que é socialmente aceite ou reprovável.

Na falta de cigarros, e depois de um copo ou dois, dou por mim a comer compulsivamente, sem nem sequer me aperceber de que já tenho o estômago cheio e que devo parecer louca. O meu avô, ou o meu rico paizinho, a comer uvas e amendoins, uns atrás dos outros…

No outro dia lembrei-me de uma cena do sex and the city, em que a Carrie é jurada num julgamento. Ao lado dela está um senhor que guarda uma manga numa mala. A abre em pleno tribunal e fica a segurá-la entre as mãos. E do quanto aquele gesto a intrigou. E a mim.

Aqui há dias falava nas pedras. Na sensação boa que me dava segurar no quartzo do colar que trouxe da Bahia. E estou a pensar seriamente em começar a carregar uma pedra no bolso, para situações de emergência. Ou só para emagrecer…

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