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Grupo e bando

14/09/2013
Por algum motivo que não consigo discernir, o grupo sempre teve em mim um efeito perverso.
Entendo racionalmente a necessidade do grupo, aparte de sermos seres sociais, o grupo dá-nos uma sensação de pertença, de alguma unidade em volta de algo em comum. Mas a tendência é que a consciência baixe, quando em grupo, levando a uma subjugação do individual em detrimento do coletivo. 
O grupo nunca me subjugou, nunca tive medo de me posicionar contra um grupo inteiro, sempre que, de alguma forma, a posição do mesmo me agredia moralmente. Dei o primeiro passo muitas vezes, sozinha, isolada da massa, em vários momentos da minha vida, em várias idades. Sem medo absolutamente nenhum. Daí que não devesse ter motivos para o temer. Mas de alguma forma “o grupo” sempre me irritou.

Um sinal claro de que a consciência baixa é o que aconteceu com o nazismo, por exemplo, a sombra individual constelou-se na coletiva, e levou onde levou. Sem que ninguém conseguisse travar um movimento tão destruidor. Todos os ismos são um reflexo disso mesmo, uma tendência arquetípica (potencial) que existe em todos nós, e por isso mesmo está na sombra individual, e que de repente se funde com a sombra coletiva, ganhando uma força incrível.

Vejo agora o grupo com outra função, a velha frase: o grupo torna-nos mais fortes é talvez um reflexo disso mesmo. O grupo protege em situações ameaçadoras, em situações às quais dificilmente sobreviveríamos sozinhos, mesmo que estejamos todos sob uma ameaça maior do que nós. 
Para o bem e para o mal, o grupo protege. O exemplo mais óbvio disso é a família. A instituição família é poderosíssima por isso mesmo, unem-nos laços familiares, sanguíneos, une-nos o vínculo que estabelecemos uns com os outros, ao ponto de ser quase inquestionável, tornando-nos quase cegos. Ao mesmo tempo que nos protege, pode sufocar-nos. Não somos ninguém sem a família, não nos viramos na vida, o que pode ser altamente castrador e pernicioso. A nossa individualidade é preterida em nome do suposto bem-estar do grupo e os dissidentes são de alguma forma expulsos (voluntária ou involuntariamente), por ameaçarem a paz, às vezes bem podre, do mesmo.
Vejo-o agora, ao grupo, e até à dupla, como algo positivo, não necessariamente castrador, mas algo que fortalece, porque protege. Não deixando de nos posicionarmos se por acaso a dinâmica do grupo nos agredir, não nos deixando levar pela baixa consciência das massas, porque é aí que a sombra vê uma brecha para nos tomar e nos levar a cometer e a dizer as maiores barbaridades a outro da mesma espécie, mas ao mesmo tempo não o vendo como uma ameaça, como algo que faz de nós impotentes para reagir e para travar o movimento descontrolado do grupo. A situação é de igual para igual, independentemente de quantos estiverem de cada lado da barricada. 
Quando a individualidade está assegurada, o grupo deixa de ser uma ameaça. E vice-versa, quando a individualidade está assegurada, a identificação com o grupo faz-se apenas por alguns pontos em comum, satisfazendo a necessidade humana de pertença, a necessidade de proteção, faz com que o grupo funcione apenas com essa função, não gerando dependência, que é o que nos faz abdicar do que nos é mais precioso, a nossa dignidade, a nossa integridade moral e, nos casos mais dramáticos, física. Vendo-o como algo que acrescenta, e não do qual dependemos para sobreviver, o grupo não nos toma o que é só nosso, que é o que nos permite posicionarmo-nos, seja em relação ao que for.

Agora que penso nisso com mais propriedade, talvez tenha sido por o associar a um bando. Um membro de um grupo consegue distanciar-se do coletivo e pensar pela própria cabeça, sem que a sombra coletiva constele a sua sombra individual. O bando não, o bando não pensa, não se destaca, é o que permite que a sombra individual se mescle com a coletiva, com a da massa. 

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