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Há sempre alguém aos gritos por causa dum bicho qualquer*…

13/01/2015

A casa em que estamos no Capão é típica das famílias mais humildes, a telha, que não se vê em SP, também por causa do frio, vê-se aqui, por dentro. Nesta, as paredes vão até cima, quase coladas às telhas, salvo honrosas exceções, da sala para um dos quartos. O ar circula e a bicharada também. Os mosquiteiros são, ou estão, meio nojentinhos e quando ajeitei o meu, numa caminha só pra mim, bem boa, deu-me uma sensação de abafo ruim, mas não me deixei levar, prendi-o debaixo do colchão, deixando espaço suficiente para poder respirar normalmente, sem o ter na cara. Antes isso do que ser devorada por mosquitos e sabe deus que outro tipo de insetos.

O nosso problema é que somos só mulheres e nenhuma tem coragem de pegar nos bichos, com ou sem papel… E o que não falta é gente aos gritos a toda a hora por causa de um inseto qualquer, nomeadamente de uma mariposa, há as aos milhares, que sai a esvoaçar de dentro de um cobertor. São borboletas, mas em simétrico, em preto e em feio, o encanto das borboletas é a cor e a delicadeza das suas asas, estas não têm graça nenhuma.

A Vera, uma coreana paulista de um quarto de século, que diz que tem um medo de baratas que se pela, acabou de matar uma e de me provocar o maior ataque de riso da história. Depois de a bicha estar branca de tanto Bombril, de ela a ter arrastado lá pra fora à vassourada e de lhe ter atirado uma pedra pra cima, sugere cortá-la ao meio. Para quem não chegava nem perto, foi certamente uma jornadinha do herói. Quando consigo parar de rir, convenço-a de que talvez não seja preciso, a bicha permanece imóvel, acabando com a crença de que o spray não as deixa tontas, mata-as mesmo, e, só pra garantir, deixamo-la debaixo da pedra, para sempre…

Apanhei um minhocão gordo e preto no meu cobertor. Chutei-o até à rua, mas talvez fosse apenas um bocado de lã, ia jurar que o vi mexer-se… Baratas mortas varro-as para a rua, no meio da maior gritaria, de nojo…

Gafanhotos que parecem aranhas de tão grandes, brancos, esquisitíssimos, quando alguém foi limpar a cara à toalha da casa de banho. Uma aranha gigantesca na porta do nosso quarto. Felizmente, a casa estava cheia de homens e o Fe, morador e amigo dos bichinhos, logo tratou do assunto de forma eficaz, pegou nela e atirou-a lá pra fora. Uma barata na cama da Vera, era sempre com ela, que era a mais divertida, porque destemida e desenrascada para tudo o resto, desportista radical, gritava de uma forma engraçadíssima. E ria-se ao mesmo tempo, de nervoso… O Alê, da cidade, não está com meias medidas, chinelada braba e pronto. De nada valeram os pedidos da Vera:
– Não a mate.
– Agora já era.

Gargalho sem dó nem piedade. Inseto bom é inseto morto, exceção feita às joaninhas e às borboletas, é isto que tenho a dizer quanto à vida dos insetos, odeio-os a todos de morte.

In: Diários de Bordo, A Nordeste, tudo de novo, @Jan.13

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