Artist Date

Harmónica

25/08/2017

O date de hoje é com o meu sobrinho mais novo, que me pede para ouvir Pogues e Dubliners sempre que nos encontramos. Ofereci-lhe o meu CD para que pudesse fazê-lo sempre que lhe apetecesse. Disse-me a mãe dele no outro dia que agora ouve António Variações.

Não podia encher-me mais de orgulho.

Lembro-me de ser miúda e de ficar vidrada em frente à TV a ver os videoclipes. Fascinada. Disse-o uma vez a um amigo que me respondeu que eu devia ser a única pessoa que gostava de António Variações, porque era completamente maluco, aparecia de babygrow em público e não estava nem aí para nada. E ninguém o entendia. Eu, com os meus humildes dez anos, não precisava de o entender, racionalmente falando. Bastava-me que existisse e que fosse reconhecido na sua excentricidade, não tivesse dela vergonha. Ao mesmo tempo, era uma pessoa completamente normal. Respondia às perguntas que lhe faziam e era simpático, querido, natural.

Estávamos no início dos anos 80. É um visionário até hoje, imagine-se na época.

No outro dia, o Salvador Sobral foi a um programa de TV qualquer e às tantas juntou-se-lhe um miúdo com asperger. A mãe falou por ele, que lhe havia dito que se tanta gente gostava do Salvador e ele era diferente, então também seria possível gostarem dele.

E foi isto que os meus dez anos, e a minha forma diferente de entender as coisas e de ver o mundo, captou e se conectou imediatamente com aquele adulto que dançava de forma estranha, aparecia em tronco nu nos vídeos e em pijama na TV. Na simplicidade dos meus dez anos, o que senti foi: não estou sozinha, isolada, dissociada. Há mais gente como eu.

E é possível co-habitarmos sem nos atropelarmos…

O meu sobrinho mais novo disse um dia destes que gostava de ter uma harmónica. Gosta de música, tem sensibilidade musical e é essa a forma como se conecta e apreende conteúdos psíquicos. O irmão disse que aquilo não ia durar, mas eu, que sei mais, não quis saber e ofereci-lhe uma, baratinha, só para não correr o risco de ter ali o próximo Bob Dylan e o deixar escapar. Na melhor das hipóteses, é um complexo que não se forma. Apreende o conteúdo simbólico que materializa na harmónica e segue adiante.

Artist’s Date 234/365 – Play a Harmonica

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