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Hipocrisia*

29/10/2012

A cada vez que oiço um raivoso: detesto hipocrisia, tremo de medo, porque, imagino, quem afirma uma coisa destas está a preparar-se para dizer um monte de barbaridades a outrem, esquecendo-se de que quem diz o que quer, ouve o que não quer. E ainda se ofende, vai vendo…

Ora, todos nós desempenhamos papeis quando em grupo, em sociedade, em família, porque a vida em grupo é assim, um monte de persona(s), máscara, em latim. Não quer dizer que a pessoa também não seja a sua persona, é, mas não exclusivamente. E isso revela-se no individual. Não se trata de fingimento, de uma manobra conspiratória para enganar o outro para ser melhor aceite, simplesmente faz parte, a persona é, na verdade, uma proteção. Já que também não dá para nos escancararmos para qualquer um, muito menos em grupo, que tem a peculiaridade de ter personalidade própria e a quem as supostas fragilidades individuais incomodam. Expor fragilidades incomoda o outro, que, constrangido, reage mal, porque o relembra das suas, que rejeita até mais não poder. Daí que a vida em sociedade é isso, desempenhar papéis. Desempenhar o papel a que acostumámos os outros, o papel que gostaríamos que fosse nosso e pelo qual somos reconhecidos, a postura que mais nos convier, no sentido em que ela faz parte de nós, por assumirmos o papel que melhor se enquadra no tipo de situação, constrangimento, que aguentamos ou não.

A questão é a consciência do que fazemos, o motivo, independentemente de estar em nós, de ser nosso, a questão é  não nos enganarmos a nós mesmos, é não colarmos a nossa persona à nossa identidade ou personalidade absoluta. É não nos acharmos bonzinhos, interessados, descolados, independentes, auto-suficientes, fortes e depois, quando não nos respondem na mesma moeda, não nos desiludirmos com o outro, nem ficarmos com raiva dele, porque não fez o que esperávamos, porque não fez o que nós, acreditamos piamente, fizemos por ele, quando na verdade não fizemos, fizemo-lo por nós, sempre. A questão, mais uma vez, é sermos honestos connosco mesmos, conhecermo-nos ao ponto de sabermos as nossas intenções, de nos entendermos a nós mesmos, de continuarmos a ser nós mesmos, de aceitar a nossa persona, e tudo o resto, individualmente, sabendo que ela não somos nós, que ela não é tudo. A questão é vermos além de nós mesmos, além da reação, da resposta, da atitude. A questão é não nos (des)iludirmos connosco, projetando-o no outro…


* (grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)  

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  • sem-se-ver 29/10/2012 at 18:23

    "É não nos acharmos bonzinhos, interessados, descolados, independentes, auto-suficientes, fortes e depois, quando não nos respondem na mesma moeda, não nos desiludirmos com o outro, nem ficarmos com raiva dele, porque não fez o que esperávamos, porque não fez o que nós, acreditamos piamente, fizemos por ele, quando na verdade não fizemos, fizemo-lo por nós, sempre."

    não podia

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