Livre

Ian

22/08/2015

Tenho a mania de quase lhe chamar Sid, o dos Sex Pistols, de quem ainda por cima não gosto particularmente, acho graça ao movimento punk, reconheço-lhe a função, mas aquela revolta permanente cansava-me muito, talvez porque também tem três letras, talvez porque são contemporâneos, pelo menos da minha adolescência, mas é Ian, o Curtis, o dos Joy Division.

Nem mesmo na adolescência me entregava à depressão. Vivia o que tinha para viver, fosse o que fosse, e seguia em frente, sem cultivar tristezas, a minha rebeldia controlada sempre me salvou. Mas gostava dos Joy Division, mais pelo sonzaço do que pelas letras e pelo seu vocalista altamente depressivo, ainda que She’s lost control, Love will tear us apart e Temptation sejam intemporais. Jim Morrison, por outro lado, era protagonista de muitas das minhas fantasias, lá está, era rebelde, agressivo e revoltadinho qb, mas ao mesmo tempo angustiado e sensível o suficiente para ter sido um poeta. A Ian faltava vida, que Jim tinha de sobra…

Ontem vi pela segunda vez Control, o filme que retrata a vida de Ian Curtis, desde o fim da adolescência até ao suicídio. Sam Riley foi muitíssimo bem escolhido, é super parecido com o original Ian, mas em giro, cada vez gosto mais dele, e não deixou nada a desejar no papel.tumblr_n6khygqPbM1qif0f4o1_500

Aquela angústia de Ian fazia-me impressão, nomeadamente por não haver nada que ninguém pudesse fazer para lhe aliviar o sofrimento. Entendo perfeitamente o pânico de a coisa ter saído do seu controlo, ele só queria cantar e compor, aquela tour para fora não lhe dizia nada, não queria fama nem sucesso, só queria resposta para as suas dúvidas existenciais e um alívio nas questões metafísicas que lhe davam cabo da saúde. A obra tem de ir para o mundo, mas o artista precisa do sossego e do anonimato para poder continuar a existir, ou passa a ser apenas um produto do ego. E a criação artística não o é sem o contributo de valor incalculável que vem do inconsciente. Ian não tinha força suficiente para resistir ao público, suas exigências e suas manifestações de apreço, e a epilepsia deixava-o ainda mais inseguro. O seu casamento foi precipitado, a vida mundana era demais para ele, que não conseguiu ver vantagem no casamento e numa vida relativamente comum, com a responsabilidade acrescida de ser pai. Ian vivia no mundo dele e o exterior era demasiado assustador para a sua tão grande fragilidade, apesar de manter um emprego regular, via-se claramente que a vida caseira o entediava de morte e, pior que tudo, não lhe respondia aos anseios da existência. A vida de palco também não. A solução foi o suicídio.

Não sabemos até que ponto Debbie iria aguentar, já praticamente não havia sinais de expressividade naquele rosto, naquele corpo, já lhe faltava vida no início da idade adulta, que é o que mais assusta na entrada da fase das responsabilidades, a ausência de vida, de espontaneidade, de criatividade, de magia. Ninguém aguenta viver frustrado sem tomar uma atitude, ou despeja as suas frustrações em toda a gente ou rompe com tudo e vai viver outra vida, ela tinha uma filha, teria de esperar uns bons anos até conseguir fazê-lo. Annik percebeu o perigo de uma relação com Ian, tenho medo de me apaixonar por ti, sabendo que ele não ia dar conta da responsabilidade que é amar alguém.

A fantasia da liberdade, da vida sem rotinas nem regras por aí além, do romance eterno, ninguém aguenta uma vida de romance eterno, da rebeldia, só compensa se do outro lado houver quem cuide de nós, e nós permitamos ser cuidados. E vice-versa. E só persiste se aprendermos o que vale e não vale a pena discutir, o que vale e não vale a pena argumentar e contra-argumentar, o que é possível aceitar e não aceitar. Só assim. E isso aprende-se com a convivência, não com o isolamento, mas apenas se a convivência for minimamente saudável. Ian e Debbie viviam isolados um do outro, debaixo do mesmo teto, sem que nenhum conseguisse abrir espaço para que o outro entrasse no seu mundo, na sua cabeça.

Ian Curtis cumpriu a sua missão, tornando-se eterno com apenas 23 anos de existência. E os Joy Division ficaram muito bem entregues aos New Order, que mantêm uma carreira sólida, garantem o som de altíssima qualidade, devemos-lhes os primórdios da House Music e só por isso já valeria a pena terem existido, e, até hoje, permanecem sem nunca, nunca desiludir, nem nas letras, que, quando não são upligting, pelo menos têm garra e por isso vida, e não morte em vida…

Aqui fica o mais recente hit, porque já gastei o round and round de tanto o ouvir.

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