Livre

In Love

10/01/2016

No verbo que usamos em português, apaixonar, o foco é na palavra paixão, que por si só traduz um estado de enfatuamento, um estádio conhecido pela ausência de sensatez, pela frugalidade. Temporário, que ignora tudo quanto vá além do que nos permite estarmos apaixonados, nomeadamente o que nos faria desapaixonar.

Sabe-se que a paixão é sol de pouca dura, dizem os entendidos que não aguentaríamos uma vida de paixão, que esta dura, no máximo, dois anos, e depois vem o que vier, o desinteresse total ou o amor que entretanto nasceu.

Já em inglês, como aliás em francês, we fall in love, on tombe amoureux, caímos de amores, diríamos, à letra, em português. A sensação é essa, a de cair, ninguém no seu juízo perfeito entra numa destas em consciência, se pensarmos duas vezes, aliás, não caímos, damos a volta ao buraco e passamos ao lado, de maneira a ficarmos no controlo das nossas emoções, seguríssimos, na circunscrição do nosso ego, em vez de ser esse órgão levado do diabo a decidir pela nossa cabeça, que, coitada, não tem outro remédio senão aguentar. Em inglês, caímos, mas depois ficamos em amor, in love, que sempre é mais simpático e menos frustrante do que a paixão, é só deixar de resistir. A paixão é ativa, quer concretizar, o amor é passivo, permanente. O Amor coexiste, a paixão quer protagonismo, ação. O Amor serve-se apenas do amor, retroalimenta-se, a paixão é dependente de terceiros.

Estarmos em amor é bonito, é deixar que o coração vença o ego, é permitirmo-nos vivê-lo, ao amor, sem exigir nada em troca, quem exige coisas em troca e quer ficar seguro é o ego, o coração quer liberdade para voar, para se expressar em todo o seu esplendor e força, o ego é que gosta de atrofio. Estar em amor é mais duradouro do que estar apaixonado. Um apaixonado, apesar do estado de encantamento, vive numa aflição desgraçada, o que o faz imediatamente arrepender da condição, ainda que esta seja benéfica se nos permitirmos dela desfrutar em pleno. Estar em amor, enamorado, é pacífico. A paixão resigna-nos, estar em amor torna-nos mais fortes, é quase uma bênção, um presente de deus.

A paixão dá-nos a sensação de estarmos vivos, aquele turbilhão de emoções, aquela esquizofrenia de ora é ora não é. Ora odeio ora amo, descontroladamente, sem freio, sem jeito nenhum. Estar em amor deixa-nos tranquilos, em paz, quase zen.

Não sei quem nos enfiou na cabeça que a vida tem de ser um turbilhão, uma esquizofrenia de altos e baixos, de ora odeio ora amo, que quando nada acontece, quando está tudo bem, é como se não houvesse vida, se estivéssemos mortos.

É verdade que a evolução da consciência nos obriga a desafiarmo-nos constantemente, mas o que nos tira a paz não são os desafios da nossa própria cabeça, é a resistência que lhes imprimimos.

Não há mais zen que os budistas e basta olhar para eles para ver como estão em paz, quietos e sossegados lá debaixo das árvores, não precisam de agitação para se sentirem vivos. Os budistas estão permanentemente em amor, a paixão havia de lhes dar cabo da serenidade, de certezinha.

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