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Intermitências da morte*

29/05/2008

Ante a morte iminente de alguém, principalmente quando esse alguém tem 30 anos, é um porreiraço, gente boa e tem uma vida pela frente, principalmente quando esse alguém não se quer ir embora ainda que a medicina diga que sim, é comum ouvirmos dizer: não vale a pena chatearmo-nos com nada. Há até um teste que se pode fazer, pra medir a importância das nossas chateações, que é: se essa pessoa morresse agora, valeu a pena chatearmo-nos com ela por tão pouco? A resposta a esta pergunta seria imediatamente Não, caso o motivo que nos levasse a chatearmo-nos com essa pessoa fosse orgulho, luta pelo poder ou alguma outra manifestação de ego insatisfeita.

Noutros casos, nos casos em que essa chateação implica a sobrevivência por parte de quem se chateia, se quem se chateia, chateia-se porque se não o fizer vive mal consigo e pessimamente com o outro, sim, vale a pena. Não por causa do amor que sentimos pelo outro, pelo que parte, mas pelo que sentimos por nós próprios. Porque pra vivermos bem temos de nos chatear, e muito…

[Ao F e à I, com quem nunca tive de me chatear, um grande, grande beijo, um abraço bem apertado com muita, mas mesmo muita tristeza deste lado do Atlântico.]

*Título roubado ao Saramago

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