Livre

Isa and the waves

03/02/2016

Foi-me proposto que caminhasse sem música. Ainda não consigo. A amo-te rádio, para além de ditar o ritmo dos meus passos, anima-me, distrai-me de mim. E impede-me de ouvir as conversas, ainda que en passant, das pessoas com quem me cruzo e que passam por mim. Sou sensível ao vozear e dada a algum nervoso, e os assuntos mundanos alheios, bem como a maioria dos tons de voz, ativam-me precisamente esse nervo, levando-me a algum descontrolo mental, o que me prejudica a performance e me tira o prazer, físico e visual, da caminhada. O objetivo é sair da cabeça e obrigar-me a reparar no que está à minha volta, concentrando-me no corpo todo, ativando todos os sentidos, descobrindo novos prazeres. Que se lixe.

Hoje, quando pegava no telefone para desligar o temporizador que me avisava que já tinha passado meia hora e era tempo de voltar para trás, os fones caíram e foi aí que me dei conta do barulho das ondas. E apeteceu-me ficar a ouvi-lo. Ainda não consegui materializar o símbolo em signo, elaborá-lo, dar-lhe um significado. Ultimamente, tem andado a apetecer-me mais viver as coisas do que pensar nelas e elaborá-las. Mas faço uma pequena ideia. Tudo à minha volta era silêncio absoluto, ainda que algumas pessoas estivessem no mesmo espaço, estavam caladas, o que é raro, as pessoas têm a mania de falar, mesmo quando não têm nada de relevante para dizer, eu e a minha incontinência verbal que o diga. Só dava para ouvir o barulho único e inconfundível das ondas. E a sensação de conforto de saber que posso sempre contar com ele. A praia estava vazia, praia boa é praia vazia, já se sabe, e parecia que aquele som ecoava nas rochas e que o barulho se propagava, abafando tudo quanto era presença humana. A Natureza tem sempre este poder sobre mim, o de me lembrar que, por mais poderosa que a música me faça sentir, não controlo nada, não posso tudo, nem mesmo o que quiser, mas o que estiver disponível, o que conseguir, e, ainda assim, o de me fazer sentir segura, porque faço parte dela, da natureza, que pode mais que eu, que nos dá todas as respostas, basta que saibamos ouvi-las, são sempre as que ecoam cá dentro, e que, por isso e por ser perfeita, me protege tanto. A natureza é o que mais me faz sentir próxima de Deus.

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