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Isa explica isto da febre da bola aos mais pequeninos

22/06/2012
Todos nós precisamos de ilusões, de coisas que nos distraiam de nós mesmos, da nossa vida, da nossa existência, das nossas fragilidades e das nossas incapacidades, de coisas que nos permitam viver, sendo nós mesmos e não sendo. A febre da bola que toma conta de muita gente durante europeus e mundiais serve para isso mesmo. Por mais que critiquemos o nosso país, todos nós, querendo ou não, gostando ou não, aceitando ou não, somos portugueses. A nossa alma, lá no fundinho, é portuguesa. E isso não se explica, simplesmente toma conta de nós. Mesmo que nos preparemos sempre para dizer mal, para criticar, para prever as desgraças, para poder dizer eu já sabia, é uma condição bem portuguesa essa, a de ser melhor estar certo do que tentar ser feliz, parece que é pecado, todos nós acreditamos em Portugal, todos nós torcemos pelo nosso país, porque isso é torcer por nós mesmos. O futebol, tal como a música, o cinema, os livros, os copos, os amigos, as noitadas, o Benfica, os filhos, o casamento, o sexo, a política, a religião, as causas humanitárias e todas as outras, o que quer que seja que façamos para nos distrairmos de nós mesmos, é isso mesmo, uma fuga. Você aí pode ser um velho do restelo, pode ser do contra, pode querer ser o lúcido de plantão, pode ser carente de atençãozinha, pode achar-se um intelectualóide, pode até ser feliz na infelicidade, na amargura, no ódio, porque essa é a sua condição, é a forma que arranjou para sobreviver, você aí pode ser o que quiser, pode viver da forma que melhor souber e puder, mas tem, tem de ter ou matar-se-ia, ou enlouqueceria, uma ilusão, uma distraçãozinha, uma coisa que o tire do foco da sua vida, da sua condição, é uma questão de sobrevivência. Da mesma forma, todos nós precisamos de heróis para sobreviver, porque é neles que projetamos a nossa capacidade de sermos heróis da nossa própria vida. Mais uma vez, é uma questão de sobrevivência. Ao amarmos incondicionalmente os nossos heróis, aceitando que falhem, amamo-nos incondicionalmente também, enquanto seres falíveis, mas dignos de valer a pena, a confiança, o amor incondicional. A minha ilusão, e a de muita gente, é o futebol, entre outras, naturalmente, mas o futebol, e a seleção, é o que mais me aproxima de todos os portugueses, é o que nos mantem mais unidos, mesmo os que criticam, mesmo os que insistem em falar da crise, é, acho eu, o único tema que nos une de facto, a todos, queiramos ou não, aceitemos ou não, gostemos ou não, e o meu herói de estimação do momento é o Cristiano, porque é português, e por isso está ao meu alcance, e ao de todos os portugueses, porque foi, viu e venceu. Simples assim. 

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  • Mariam 22/06/2012 at 17:06

    Achas normal que eu fique tão contentinha de poder dizer às pessoas (mesmo neste momento, em que escrevo estas palavras e, eventualmente, elas serão projectadas na blogosfera), que o Cristiano andou na mesma EB 2-3 que os meus filhos? Sou pequenina e portuguesinha como todos. É que, por mais que reprima o sentimento povão, ele anda aqui, é o tal que nos põe o coração a bombar quando ganhamos um

    • Isa 22/06/2012 at 17:30

      :D

      O meu pai conta uma história de alguém que pergunta a outro alguém o que é ser patriota. A resposta foi: se ouvires o hino nacional e sentires uns frenicoques pela espinha acima, então és patriota :) eu sinto sempre, sempre que oiço o hino num estádio.

      Mas tb senti arrepios ao ouvir o hino inglês no outro dia…

      Acho que o que me arrepia é aquela união, aquela

  • Fuschia 22/06/2012 at 19:16

    Não sou fã nem deixo de ser do CR7. Mas admiro a história de vida dele, foi um gajo que veio do nada, deixou a família na Madeira para vir sozinho para Lisboa, um miudo que teve de se orientar vindo da aldeia para a cidade grande, sem familia. Ultrapassou as dificuldades e tornou-se num óptimo profissional e eu respeito qualquer bom profissional. (agora, que é um arrogantezinho do caraças, também

  • Jorge Ventura 22/06/2012 at 20:18

    Há outra coisa muito importante na bola: o fazer-nos sentir que pertencemos a algo maior que nós. Dizemos que "somos do Sporting" e quando a selecção ganha "ganhamos" todos. Como bem dizes toda a gente tem que se distrair , sonhar e fugir , mas também temos , acho eu, uma necessidade grande de fazer parte de um colectivo , identificar claramente "nós" e "eles&

    • Isa 22/06/2012 at 23:22

      Sim, sem dúvida. Precisamos do coletivo, juntos somos mais fortes e tal, mas acho que no caso da seleção, no caso das grandes competições, talvez seja uma coisa mais de identidade, aquilo tb é a nossa identidade, identificação, estamos todos representados ali, naqueles 11 gajos. e todas as nossas divergências individuais se diluem nesse coletivo, nessa identidade comum, que reconhecemos como

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