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Isabel Jonet

09/11/2012
Vi agora o vídeo da intervenção da Isabel Jonet na SIC. E acho que há alguma má fé, ou uma necessidade gritante e contínua na busca de bodes expiatórios…, no que se refere às interpretações que li por aí e no que se escolheu comentar, tendo em conta uma intervenção de seis minutos e quase meio. 
Apesar de os exemplos que escolheu terem sido infelizes, tem razão em algumas coisas, nomeadamente quando põe o dedo na ferida e fala nos pais que dão tudo aos filhos, podendo ou não podendo, nos pais que fomentam a ideia de felicidade ligada a um consumo exacerbado. Nas pessoas que inventam necessidades para justificar o consumo de coisas que, simplesmente, não podem pagar, não precisam, são dispensáveis ou trocáveis por outras, no caso de precisarem mesmo delas, nomeadamente para poderem trabalhar, para poderem viver…

Quando estive aí em Lisboa, em julho deste ano, a minha mãe contava-me que nas notícias os repórteres saíam para a rua para perguntar às pessoas como ia a vida e como estavam a lidar com a crise. As pessoas queixavam-se muito… porque não podiam ir de férias para o estrangeiro… O Algarve estava cheio de gente… O único festival de verão a que fui, à borla, estava lotado, todos os dias, as pessoas continuam de iphone na mão. A minha terapeuta falava-me de uma mãe que estava muito triste por não poder dar uma PS3 ao filho e por aí vai…

Lamento, mas concordo com ela, independentemente de não ter nada a ver com a forma como as pessoas educam os seus filhos, como gastam o dinheiro que ganham, sabendo que não é consumindo tudo quanto há, só para que os seus filhinhos não façam má figura perante o colega que tem um iphone e eles não. Só porque não aguentam que os amigos viagem e eles não, viajando, tenham condições para isso ou não… 

Daí que a questão: “viver acima das suas possibilidades” seja pertinente, já que é muitas vezes o que acontece, com muita, muita gente. Viver para mostrar aos outros… No entanto, questiono-me a quem ela se refere quando diz: alguém há-de pagar. Ao que sei, paga quem compra, consome… 
A grande maioria das opiniões que li por aí focou exclusivamente no momento em que ela disse que não havia miséria. Bom, eu não sei exatamente como ela define miséria, como vocês definem miséria… Sei que na minha infância via barracas, estive na fila do leite e do pão porque eram alimentos racionados, havia pobreza, muita pobreza. Já adolescente, amigos meus contavam-me a velha história de uma sardinha para 6…

Sei que com o advento da CEE, CE, UE, as barracas foram desaparecendo, a miséria deixou de se ver nas ruas. Nós habituámo-nos, e bem, a viver num mundo em que isso não nos era imposto, não éramos obrigados a conviver com isso. A Europa, de repente, ficou rica, ou pelo menos com condições de vida mínimas, nomeadamente  podendo bancar casas para as pessoas viverem. No fim dos anos 80, início dos anos 90, os tempos eram outros, havia sinais de prosperidade e a UE prometia ser o el dorado do século 21, dificilmente voltaríamos para trás, havia dinheiro a rodos, a fundo perdido, (lembro-me de questionar: como assim a fundo perdido? Mas não me cabia aprofundar-me no assunto), toda a gente contou com isso e é natural que assim seja, nós vivemos de acordo com a nossa era, não com a era do gelo.

Hoje, quando voltava para casa de autocarro, um rapaz levantou a voz e pensei: bom, lá vem mais um pedir para a Renascer ou vender balinhas e chocolates. Não, ele tinha uma voz diferente, um tom de voz controlado, para não chorar. A filha dele de dois meses e meio tinha morrido ontem, ele conseguiu que a prefeitura de São Paulo pagasse o funeral. Mas, para trazer o corpo da miúda de Santos para SP, ele precisava de dinheiro e tinha até hoje, às 9 da noite, para o conseguir.  O funeral é amanhã, às 11 da manhã. Quando entrou no meu busão, faltavam-lhe 275 reais, €100. Ele estava humilhado por ter de pedir, era o segundo autocarro em que entrava e no outro já tinha conseguido alguma coisa, bem como com alguns amigos, os poucos que lhe restavam. Já sem se conseguir controlar, chorava, de tristeza, de desespero, de dor, de tudo. Um rapaz que, após a morte de uma bebé, tem de sair de perto da mulher para vir pedir dinheiro para poder trazer o corpo da filha para a sua cidade, para poder enterrá-la, isto sim, é muito triste, muito mesmo. Miserável, arrisco-me a dizer…
Em São Paulo confronto-me com situações de miséria todos, todos os dias. Todos. Miséria a sério, gente que mora na rua, verdadeiros zumbis, aos milhares, de todas as idades. Gente que me pede o resto da meia porção de batatas que deixo no prato, por não aguentar comer mais…

Talvez seja bom revermos conceitos, sem moralismo nem juízos de valor… Muito menos sem querer aqui fazer concursos de quem é mais miserável, rever conceitos, só isso. Ter de abdicar de um carro, por exemplo, trocar de casa para uma menor, tirar os filhos do colégio e pô-los em escolas públicas, não jantar fora, não poder ir de férias para fora, para o algarve… não é ser miserável… 

É natural que nos custe mudar de vida, que nos custe, de repente, constatarmos que nada nesta vida nos é garantido, mas é preciso, também, reaprendermos a viver com as condições que se nos apresentam. Redefinir prioridades, reeducarmo-nos… Não menosprezando o desespero de ninguém, mas também não me entregando a ele como se estivéssemos de mãos e pés atados, não estamos…  

O que me chateia nos discursos sobre a crise é que os alvos são sempre os mesmos, sempre. O que me chateia é que se exija a quem não pode mais, sem comprometer a sua integridade física. E não, a solução não é deixar de dar comida ao banco alimentar, meu povo, vamos focar, vamos centrar-nos. 

Obviamente não sei qual é a solução, sugeri algumas medidas aqui, mas pela parte que me toca, insisto, gostaria de ver esclarecido como é que Portugal, e o resto da Europa, chegou à situação a que chegou. Como é que isto aconteceu, quem meteu dinheiro ao bolso e porquê, onde está essa dívida, quem a contraiu. Trata-se de apurar responsabilidades, de fazer os responsáveis pagar por isso, porque cometeram crimes têm de ser julgados e, eventualmente, punidos. O que não dá é para continuar a viver num sistema que permite que situações destas aconteçam. Instituições financeiras que emprestam dinheiro a juros altíssimos, dominando, pela via da economia, países menores e eventualmente menos ricos, porque não estamos a falar de pobreza aqui, pobre é a Bolívia e o Perú…, que depois se vão financiar, à conta dos juros, verdadeiramente incomportáveis para o país que contraiu a dívida. Afirmo o que já afirmei antes, a Alemanha domina a Europa outra vez, só que desta vez foi mais inteligente, não disparou um único tiro, dominou pelo dinheiro, aproveitando-se da condição de países que vivem de aparências, como é o caso de Portugal. Ninguém aqui é vítima, a situação serve aos dois, via de mão dupla, sempre… 
Acima de tudo, o que tem de mudar é o discurso, a mentalidade, a lei, a forma como se está na política, a forma como se encaram os cargos públicos que se ocupam, nomeadamente, que o dinheiro público não é a casa da sogra e não é de ninguém, é público, para o público. Li no outro dia, por exemplo, que o Sócrates, aquele gajo que está em Paris a viver que nem um nababo e que disse que as dívidas não se pagam, JOGOU dinheiro da Segurança Social em bolsa. O que se faz, corta-se na reforma dos velhinhos.

O problema NÃO é o estado social, o problema é essa corja que usa o dinheiro de coisas que, essas sim, deveriam ser garantidas pelo Estado, educação, justiça e saúde, a preços baixos para quem não pode pagar, é uma questão de humanismo, para, sei lá, financiar bancos de investimentos… O que me choca é que não vejo ninguém, ninguém falar nisto, ninguém com vontade de mudar, de facto, a vida de uma nação inteira. 

O resto, o resto a gente vai levando, rezando para que não se nos acabe a saúde… 

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  • Mac 09/11/2012 at 09:06

    Ia falar nisto, também me parece que há alguma vontade de encontrar bodes espiatórios. O mais grave é que chegámos a um ponto de vitimização, em que já ninguém pode dizer, ou escrever nada, sem que tudo possa ser interpretado a seu belo prazer, principalmente se puderem pegar para usar em benefício próprio. Acho que ela foi infeliz, mas não me parece que aquilo que diz dê aso a isto tudo, a não ser que seja essa a vontade de interpretação.

    • Mac 09/11/2012 at 13:51

      * azo

    • Isa 09/11/2012 at 14:32

      principalmente se puderem pegar para usar em benefício próprio. + a não ser que seja essa a vontade de interpretação.

      Olha, nem mais… (cheers for the link ;)

  • Mac 09/11/2012 at 09:11

    (e acho incrível que se esqueça o trabalho dela em vinte anos no Banco Alimentar, de repente ficou muito conveniente atirar pedras a uma mulher que tem mais do que provas dadas, não percebo, ou não quero perceber, mais por aí, esta mecânica de grupo)

    • Isa 09/11/2012 at 14:33

      isso!

  • Cristina 09/11/2012 at 10:09

    Texto brilhante, mesmo! E sim, também concordo que a Isabel Jonet não esteve no melhor momento da sua vida… acho que foi mal interpretada.. mais ainda, acho que divagou, não falou exactamente do que queria (ou era esperado que falasse) e ficou meio confuso, logo muito sujeito a extrapolações descabidas.

    Posso linkar este post no meu FB?

    • Isa 09/11/2012 at 14:33

      ;) obrigada, Cristina. Claro que sim, agradeço-te.

  • Espiral 09/11/2012 at 10:56

    Concordo contigo também…

    É impressionante como as pessoas são moralistas.

    Como já disseram aqui, ela pode não ter dado os exemplos certos, mas é sempre díficil agradar a gregos e a troianos.

    E as pessoas estão mal habituadas sim.

    Eu conheço pessoas que gritam que Portugal tá mal, que é uma miséria, mas que tem ordenados líquidos de mais de 1000 euros, mas fizeram emprestimos altissimos (e desnecessários, não era uma casa nem um carro sequer), gastam 200 euros por més em tabaco e se calhar mais 100 em cafés e queixam-se que não poupam um euro ao fim do mes.

    Também há outros casos claros, mas uma grande faixa é este o caso.

    Além de pessoas que não perceberam que tem que adaptar o nível de vida.

    Eu até agora não tive que me adaptar muito. Mas apenas porque sempre fui poupada. E nunca tive a postura da minha e da geração anterior de “chapa ganha, chapa gasta”.

    Se custa. Sim. Mas não é dramático.

  • São João 09/11/2012 at 11:55

    Tens razão. Só que já não é a primeira vez que esta senhora faz declarações “estranhas”. Se não se sabe expressar correctamente, se não é bem aquilo que queria dizer, se calhar não devia ir à televisão falar. Ninguém a obriga a ter o dom da palavra, ninguém a obriga a vir à tv falar. Ela podia falar de tanta coisa relativamente ao seu trabalho mas escolheu dizer exactamente aquilo que todos vimos. E ela mais que ninguém devia perceber que as pessoas estão muito sensíveis.

    Tens razão. É claro que há gente que faz o que ela diz, não duvido. E ela também tem a razão. É claro que as pessoas têm de aprender a gastar menos. Mas cada um fala da realidade que conhece. Eu não conheço pessoas que comam bifes todos os dias ou que lavem os dentes com a torneira aberta. Se os casos de pobreza que ela conhece são esses, se ela acha que a maior parte dos casos de pobreza tem essa causa então se calhar anda a canalizar os proveitos do banco alimentar para as pessoas erradas. E isso é grave.

    Tens razão, a miséria é um conceito discutível, há muita gente no mundo que morre de fome e dorme ao relento. Não me parece é que devamos aceitar isso como natural, achar que “ter de empobrecer” é normal e deve ser aceite sem pestanejar, quando sabemos que a grande causa da depressão económica não é exclusivamente o padrão de consumo das famílias. Porque “ter de empobrecer” não é comer menos bifes ou deixar de ir a concertos, é crianças a desmaiar na escola porque só comem uma refeição por dia, é crianças a tomar banho de água fria no inverno porque não há dinheiro para arranjar o esquentador. É pessoas a remexer no lixo.

    Tens razão. É preciso averiguar sobre esta questão da dívida, qual é a dívida do estado, dos bancos e dos particulares. É preciso perceber que a dívida do estado se deve a dinheiro gasto em PPPs, BPNs, privatizações ruinosas, jogadas em bolsa, etc. Mas está visto que isso não vai acontecer. E por isso pagamos todos. Eu não me importo de pagar mais impostos, felizmente ainda consigo levar uma vida equilibrada e não me importo de abdicar do meu dinheiro em favor dos outros. O que eu não posso tolerar é aumentarem a carga fiscal de quem recebe o salário mínimo ou tirarem direitos aos idosos que recebem 200 euros por mês. Porque os idosos que recebem 200 euros por mês não vão a concertos, não comem bifes, não lavam os dentes de torneira aberta e nem sequer tomam banho todos os dias. E é uma população imensa. E o dinheiro dos meus impostos é usado para financiar tudo menos essas pessoas.

    Desculpa o testamento. Beijos para o outro lado do mundo :)

    • Isa 09/11/2012 at 14:37

      empobrecer foi uma escolha muito, muito infeliz, ng quer empobrecer, mas, meu, vamos um pouquinho além das palavras que ela disse e do seu sentido estrito, sabes? ou nao fiquemos por numa palavra só…

      Bjo, sua linda :)

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