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Isa@Cais

06/06/2008

Adoro o meu Bairro
Não sei em que porta vivia a Mariquinhas mas é essa a canção que cantarolo enquanto estendo a roupa na janela da cozinha, num dos bairros mais bairristas de Lisboa.

Chego de fim-de-semana e deparo-me com a minha varanda envolta num quadrado colorido, cada tira de sua cor, carregadinho de manjericos e balões, que ocupa toda a largura da rua.

Os Santos chegaram à cidade.

Saio para a rua a trautear: Canta Bairro Alto canta…

O meu bairro é demais. Mais lisboeta não poderia ser. Com direito a crianças, velhos, famílias inteiras, bêbedos, trolhas… tanto tem de bairro lisboeta quanto de bairro europeu, drogarias, mercearias, talho, peixaria, lojas de ferragens, cabeleireiros e lojas, lojas que não existem em mais lado nenhum, de roupa, ténis, mochilas… Vintage, Seventies, discos em vinil e roupa modernaça de estilistas de renome. Não lhe falta nada.

Já conheço uns quantos cromos: um de cabelo coladinho que durante todo o Mundial envergou uma camisola da selecção, a mesma, estou em crer, e que só sabe dizer duas frases: O pai quer, o pai manda, o pai pode. Pai é pai! É isto todo o santo dia. Há uma cinquentona que está sempre na rua, a qualquer hora, nos degraus, a falar com alguém. Digo-lhe bom dia e boa tarde. No meu bairro passa-se pelas pessoas e diz-se bom dia e boa tarde, as pessoas à janela respondem. Há gente que apenas vê quem passa. Há uma avó que tem uma voz horrível, um cabelo horrível e um cão horrível. Não sei o que é pior, se a voz dela se o ladrar do cão. Há uma mãe que discute com a filha adolescente dia sim, dia sim. Há velhos acamados e vizinhos que lhes fazem companhia. Da minha janela oiço os gritos da criançada no intervalo da escola.

Tem dias que o pessoal começa a gritar logo pela fresca, às 7 da manhã já se ouvem mulheres aos berros, aos insultos e ao que calha, em línguas diversas. Mas na maior parte das vezes é muito tranquilo, estranha-se o silêncio da manhã no centro de Lisboa. A coisa anima pela hora de almoço: a criançada joga à bola na rua e os cromos do costume passeiam-se a qualquer hora do dia ou da noite.

Ouvem-se as conversas todas, está-se praticamente na sala do vizinho, ouve-se palavrão do mais cabeludo a qualquer hora do dia e todas as noites, todas, há gente a beber copos nos bares aqui em baixo. De vez em quando dá-lhes para discutir. Partem garrafas no chão e dão pontapés em latas, o barulho que o eco faz é de dar um tiro na cabeça. Ainda assim, é preferível aos camiões, carros e autocarros a abrir rua abaixo. Aqui jamais se ouvem alarmes. Só palavrões e cães a ladrar. Discussões e gritaria avulsa.

Mas é muito Lisboa e é que gosto mesmo muito da minha cidade. Principalmente em Junho, porque está em festa. De cara colorida cheia de pessoas mais alegres do que o costume. Que se misturam com a turistada de todas as cores, de todos os tons. E eu estou aqui. Bem no meio, onde tudo acontece.

E que gosto de morar aqui, no centrão de Lisboa – com o cheiro a sardinhas a entrar-me janelas dentro, ouvir um faduncho, vindo de um qualquer restaurante, em vez das músicas dos vizinhos, do ladrar enervante de um qualquer cão de uma qualquer vizinha e do palavrão bravio que vem lá de baixo – isso gosto.

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