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It’s a long journey to 40

27/09/2010


Podemos ter saudades da infância por vários motivos, porque não tínhamos preocupações, porque não tínhamos responsabilidades, apenas tínhamos de obedecer, porque podiamos comer sem culpa, porque podíamos ficar a olhar para a cara de alguém durante horas sem nos sentirmos constrangidos. Por uma série de motivos que não me lembro…

Tenho saudades desse tempo, do qual não me lembro absolutamente nada, apenas que não falava, não respondia, não sorria se não me apetecesse, independentemente das inúmeras tentativas adultas de me manipular. Independentemente de a minha mãe se passar e de eu passar por mal-criada. Cheguei a prejudicar-me fortemente, simplesmente porque não me apetecia responder quando me faziam uma pergunta. Só falava o que queria, quando queria, com quem queria. Basicamente não tinha paciência para os adultos e para a sua conversa de merda. Para as suas boquinhas, para as suas piadinhas e para o facto de acharem que podiam dizer o que quer que fosse a uma criança. Eu não podia responder. Naquele tempo as crianças não respondiam aos adultos [e os meus pais, em particular, não nos defendiam…]. As crianças aguentavam caladas (eu, pelo menos. O meu irmão mais novo uma vez mandou calar o meu imponente tio F… e toda a gente achou muita graça principalmente porque ninguém o encarava) e sujeitavam-se a ouvir tudo quanto um adulto achasse por bem dizer. Foi nessa época que ganhei um trauma gigantesco em relação à minha voz… Ainda oiço as gargalhadas do meu primo Xico, que dizia à minha mãe para me dar gelo, a ver se a minha voz ficava mais fininha. [Eu gosto do meu primo Xico e ele acha-me gira de doer].

Eu era quieta, sempre fui. Brincava sozinha, ficava na minha. O síndrome de eremita nasceu comigo, não é de hoje. Eu bastava-me. Às vezes convencia o meu irmão mais novo a brincar comigo, mas na grande maioria das vezes, brincava sozinha, falava sozinha e ficava na minha. Horas e horas sem fim. Sempre que não estava preocupada em ser aceite pela minha mãe, eu brincava. Brincadeiras de adulta, na maior parte das vezes, como todas as meninas, eu acho…

Eu era tímida, muito, muito tímida. Era também por isso que não falava. Uma vez vomitei nas costas do marido da minha madrinha, que bem mereceu que lhe vomitasse nas costas a ver se deixava de ser tão stiff, porque simplesmente não disse que estava enjoada que nem um perú. Eu enjoava, enjoava horrores no carro, horrores… O que me dava o direito de ir na porta do carro e deixava os meus dois irmãos mais novos furiosos, principalmente o, hoje, pai do Joãozinho. Ele não acreditava, mas a verdade é que eu ficava verde de enjôo. O meu irmão mais velho era um ditador e os meus pais pactuavam com aquilo. A porta por trás do lugar do morto era sempre dele, nós que nos virássemos uns com os outros para decidir quem ia na outra. A história acabava sempre com o meu pai aos berros a dizer-nos para entrarmos…

Tenho saudades desse tempo, do tempo em que odiava os adultos. E gostava de saber em que momento perdi a capacidade de discernimento e acima de tudo a capacidade de ignorar, de ficar a olhar sem abrir a boca, sem medos nem culpas. Sem paranóias nem ilusões.

O meu pai gostava de mim, e isso, regra geral, chegava-me.

*Odiava este gancho, arranhava-me a cabeça…

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