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José e Pilar

15/11/2010

É um perfil muitíssimo bem feito de José Saramago. Desde que aqui cheguei que a palavra humanização ganhou outros contornos. E foi o que a equipa de José e Pilar fez com Saramago. E é esse o objetivo do jornalismo literário e, obviamente, de um dos seus géneros, o Perfil, que, em teoria, retrata um momento da vida de uma pessoa. Sem a romancear nem fazer dela um monstro, humanizando-a, portanto. Muito, mesmo muito bem conseguido.

Tinha o Saramago em péssima conta, nunca li nada dele por causa disso. No entanto, saí de lá encantada. A digeri-lo pela Paulista afora, até chegar a casa.

Nenhuma das opiniões que transmitiu no filme me ofendeu. Mostrou-me sim um homem muito consciente, muito inteligente, com os pés na terra e muito português. E com imenso sentido de humor, quem diria… Muito humano, carinhoso como nunca supus, humilde como nunca o mostrou em público. O amor por Pilar é muito comovente e a sua, dele, imensa fragilidade também. Todo o documentário nos grita o nosso inconsciente coletivo, a toda a hora. Senti-me mais portuguesa do que nunca e ri-me imensas vezes sozinha na sala.

Uma coisa que em Portugal se chama Acordo e no Brasil se chama Reforma mostra bem a diferença que existe nas duas versões de uma mesma língua. E que persistem, com ou sem acordo. E, portanto, tem muito pouco a ver com o facto de os “portugueses acharem a universidade do Brasil uma merda” Sra. D. Pilar. Informe-se melhor. [Falando nisso, vergonha alheia do jornalista que a entrevista…]

Saramago não saiu de Portugal por causa de Cavaco, acho que ele mesmo percebeu isso em vida, Saramago personalizou a sua portugalidade em Cavaco, foi isso que ele fez. Saramago saiu de Portugal, e ainda bem, porque Portugal, ou a sua portugalidade, melhor dizendo, o oprimia. Entendo-o perfeitamente. Foi isso que lhe permitiu escrever e deixar o legado que deixou. Bendita a hora, deu um Prémio Nobel a Portugal, estamos-lhe todos muito gratos. Saramago nunca negou a raça, não a negue você, Pilar.

Gostei muito da posição dela no discurso pró Espanha, muito pouco do discurso da União Ibérica. Tenha juízo. A única pergunta inteligente feita por um jornalista português foi se defendia a mesma união entre Alemanha e Áustria. A resposta dela diz tudo e nem vou perder tempo a comentá-la.

Essa defesa exacerbada da Hillary Clinton (como qualquer defesa exacerbada do que quer que seja) tem muito pouco a ver com o feminismo bacoco que aparenta, mas mais a ver com a sua defesa pessoal, com o facto de ter optado por dedicar a vida ao seu marido. Isso não é vergonha nenhuma, talvez a abale nas suas convicções sobre si mesma, de mulher forte e poderosa que com certeza é.

A filha dele diz que não entende porque Portugal o trata mal. Portugal foi apenas coerente consigo mesmo. Saramago, aos nossos olhos, abandonou Portugal, traiu a pátria, é natural que Portugal não o aceite de volta. Somos muito, muito orgulhosos, a senhora provavelmente também o seria se não se tratasse do seu pai.

O facto de Portugal nunca ser reconhecido na imagem e de Lisboa aparecer três vezes, as duas primeiras muito rapidamente, é apenas coerente com a vida de Saramago desde que optou por viver em Lanzarote. E é muitíssimo bem feito. A imagem de Lisboa vista do Rio mostra isso mesmo, que Saramago fez as pazes consigo e, consequentemente, com Portugal.

Não vou ler os seus livros a correr, tenho imensas prioridades antes de poder fazê-lo, mas um dia lerei. E agradeço à equipa que fez, concebeu, produziu e nos trouxe este documentário. Seria um desperdício não conhecer este homem no seu lado mais humano.

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