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Lá na terra de onde venho…

07/05/2012

Lá na terra de onde venho, temos que, assim mesmo, “que”, e não “de”, é uma obrigação, sabes? Lá na terra de onde venho temos que ter um carro do ano passado, uma TV deste ano, quanto mais se aproximar do tamanho da parede da sala melhor, o iPad que vai sair e o iPhone que ainda nem nasceu. Lá da terra de onde venho temos que ser profissionais de sucesso, gostar do que fazemos, temos que ter os melhores filhos do mundo, os melhores pais do mundo, os melhores amigos do mundo e o melhor do mundo em geral. Lá da terra de onde venho temos que ter “personalidade forte”, o que implica sermos uns mal-criadões, escandalosos, inconvenientes e insuportáveis. Lá na terra de onde venho também temos que ter mau feitio. Lá na terra de onde venho, acredites ou não, temos que ser sempre racionais, racionalizar é a palavra de ordem. Lá na terra de onde venho não podemos chorar, gritar, sentirmo-nos magoados ou ofendidos. Que fará tristes… Lá na terra de onde venho não podemos desabafar sem que alguém nos diga o que,  lá está, temos que fazer. Lá na terra de onde venho não interessa o que sentimos, como sentimos, porque sentimos. Lá na terra de onde venho temos que ser “fortes” e deixarmo-nos de mimimi. Lá na terra de onde venho não podemos pôr-nos com mimimi, isso é coisa de gente fraca, temos de o guardar para nós e seguir vivendo amargurados, mas muito “fortes”. Lá na terra de onde venho não pedimos desculpa, respondemos, ridicularizamos, fazemos o outro sentir-se ainda pior. Lá na terra de onde venho temos que ser bonecos de betão armado. Lá na terra de onde venho temos que pensar assim sobre este tema e assado sobre aquele, lá na terra de onde  venho temos que amar o ambiente, as baleias, os animais, proteger as causas dos homossexuais e os direitos das minorias, lá na terra de onde venho temos que amar as criancinhas, e aturá-las, temos que ser pró aborto e dizer que comemos sushi, mesmo que tenhamos almoçado um bom bitoque da vazia, ou uma simples dourada. Lá na terra de onde venho temos que apoiar o cinema nacional, seja ele uma merda ou não, o teatro nacional, a música nacional, o nacional, mas não temos necessariamente de consumir o que é nacional. Lá na terra de onde venho temos que ser saudáveis, seja lá o que isso for, vestir esta marca, andar maquilhadas, em cima de triplo saltos, pesar 50 quilos, seja a nossa genética de que tipo for, e ser do Benfica. Lá na terra de onde venho temos que saber o que se passa no mundo todo e ter “opiniões formadas sobre tudo”, desde que coincidam com as da maioria. Lá na terra de onde venho temos que ser felizes, ter uma vida preenchida, ter imensos amigos, sair todas as noites, viajar todos os fins-de-semana, para os sítios da moda, as praias da moda, temos que ver os filmes da moda, as séries da moda, ler os autores da moda e os cronistas da moda, temos que acreditar em tudo menos em deus, temos que estar na moda, seja ela qual for, adeque-se a nós ou não. Lá na terra de onde venho temos que votar, porque senão não podemos falar. Lá na terra de onde venho achamos que somos livres. Lá na terra de onde venho não interessa quem somos de verdade, interessa que reclamemos, que sejamos truculentos, que ganhemos sempre qualquer discussão, que sejamos quem achamos que o mundo quer que sejamos. Passivos ou ativos, o mundo que escolha. Lá na terra de onde venho temos que ser exemplares aos olhos do mundo, pra quem, meu deus, pra quem… Lá na terra de onde venho ainda não percebemos que continuamos infelizes e que o mundo se está absolutamente borrifando pra nós, desde que andemos dentro do sistema e não levantemos muito a voz. Aliás, quem é o mundo pra saber o que quer que seja? Quem é o mundo? Aqui na terra onde estou, houve alguém que disse que nós temos é de ser nós mesmos e, se não conseguirmos sê-lo no lugar onde nascemos, e não ouvi o resto da frase, porque disse para o lado, atravessamos um oceano e vamos pro Brásiu.    

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  • S* 07/05/2012 at 18:56

    Palmas a ti.

    Estou fartinha do português que adora o ter e não o ser. Do português que adora gastar o que não tem, que acumula cartões de crédito mas que passa o fim do ano e as mini-férias todas fora do país ou então no Algarve, que diz que o resto do país não presta. Eu não sou de essa terra de onde tu vens. Passo as férias em casa ou numa cidade vizinha. Não sou de sair à noite, gosto do cinema caseiro e acho que as pipocas do cinema fora de casa são para lá de caras. Na terra de onde eu venho, compra-se na H&M e às vezes até se encontram coisas giras na C&A. Na terra de onde eu venho, tem-se pouco, mas o que se tem é nosso, não é do banco, não é da Cetelem ou de qualquer outro credor.

  • Diana 07/05/2012 at 21:19

    Olha que não gostei nada dessa terra de onde vieste… Mas é para lá que voltarei um dia. E tenho esperança que esteja um bocadinho melhor. E espero tb levar um bocadinho desta alegria de viver e de ser feliz com o que se tem.

    • Isa 07/05/2012 at 21:25

      eu tb, Diana, eu tb…

  • Espiral 07/05/2012 at 22:02

    Há pessoas que não são assim nesta terra. Pessoas que adoram sushi e adoram dourada, que não precisam de ter o último iphone para sentirem que tem personalidades.

    Que pensam porque sim e não querem seguir a maioria só porque não. Existem =)

    Que há quem tenham pouco, muito ou nenhum dinheiro, mas isso não importa. Eu compro roupa porque gosto, livros porque gosto, blocos e cadernos porque gosto. Telemóveis e portáteis porque tem de ser. Há compro comida por gosto também =)

    Mas são gostos não é? Há pessoas para tudo sim. Nesta terra =)

    Um beijo grande.

    • Isa 07/05/2012 at 22:06

      Sei que há, minha querida, porque todas elas me lêem :)

      blocos e cadernos, meu deus, e canetas, o que eu gosto de canetas…

      O problema sempre fui eu, Espiral, eu sei. e tb sei que somos muito mais do que tudo isso, mto mais, uma pena que não o vejamos, que não o exaltemos, uma pena…

      Bjo gd a ti

  • Espiral 07/05/2012 at 22:05

    E as pessoas choram e não racionalizam tudo. É a vida. E são humanos a tentar ser o melhor possível =)

    Há pessoas fantásticas por aqui sim…

    • Isa 07/05/2012 at 22:54

      às vezes acho que elas tentam ser o pior possível, Espiral, deus me perdoe…

    • Espiral 07/05/2012 at 23:00

      Nos momentos em que ando de bem com a vida a acho que só é mesmo a tentar ter um sentido de pertença qualquer e é tudo defesas. Mas não esqueço que sim também há muita gente que não presta. E sim, também há erros que não têm perdão.

      Mas há boa gente. Só que agora parece bem mostrar só a outra parte. E há quem ande nisso. Às vezes tenho só pena. Às vezes tenho só raiva.

    • Isa 08/05/2012 at 04:36

      é muita amargura no coração, Espiral, deus nos defenda, sinceramente.

  • Izzie 08/05/2012 at 08:26

    Adorei, adorei, adorei. Apesar de não me reconhecer neste retrato, reconheço muita gente que me asfixia e sufoca e às vezes me dá vontade de fugir.

    (e li por aí nos comentários sobre cadernos e canetas, não me falem em cadernos e canetas, tenho uma doideira por objectos de papelaria, não há nada tão gostoso como um caderno novo, o cheiro das folhinhas em branco)

  • Anonymous 08/05/2012 at 11:08

    Ah! então é por isso que me sinto tão "emigrante" por aqui…
    Tenho um iphone e imensas opiniões (que não valem nada…). Acredito em Deus. Racionalizo até à exaustão e choro baba e ranho. Sou fraquinha, fraquinha. E outras vezes tão forte!
    Mas do Benfica, nunca!
    Amei! Baci tanti
    <3

    P.s.: a minha TV é um mono do pior!

  • Mariam 08/05/2012 at 11:38

    Isso é, quase literalmente, o grito do Ipiranga!
    (ai, não resisti :-) É que se aplica tão bem aqui…)

  • Amandine 09/05/2012 at 15:09

    o tal povo que vive de aparências, tentando aparentar sempre o que de todo não é! Também eu me questiono se virar-lhe as costas será a saída uma vez que nós somos os únicos responsáveis pelo futuro deste nosso país. Virar as costas não será deixar de acreditar que um dia com a nossa força de vontade e determinação ele pode voltar a ser uma terra muito melhor, senão a melhor de todas1?

    • Isa 09/05/2012 at 15:51

      eu amo a minha terra, sempre, e hei de amar até morrer, é a terra mais linda do mundo, apesar de ela me ter virado as costas há mto tempo, de me ter mal tratado, apesar de ter tentado, insistido, ainda assim. é uma questão da minha sobrevivência, Amandine…

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