Livre

Lagartas de Algodão

23/04/2015

Escolho-te pelo teu aspeto fofo, mas frágil. O teu pêlo é cheio de espaços vazios, protege uma espinha sólida e cai ao meu toque, delicado mas persistente. Mal sinto a consistência do teu pêlo, que também não me cheira a nada. Seguro um pouco dele na minha mão e enrolo-o com os dedos, fica reduzido a uma linha branca e finíssima. Estou curiosa quanto à tua espinha, mas tenho medo de te tirar o pêlo todo e te expor demasiado.

Fecho os olhos, respiro e ouço as instruções que me dão. Inspiro pelo nariz e deixo o ar descer-me pela garganta até me chegar aos pulmões. Continuo a ouvir as instruções e a palavra que me vem à cabeça é HOPE, assim mesmo, em inglês. À pergunta: onde o ar toca, não tenho a mínima dúvida, é no coração, bem no centro do meu peito, e é lá que fica. Sem a voz, sinto um frio no pescoço, o meu pulso direito ferido dói e tenho comichão na testa, do lado esquerdo. Concentro-me nos barulhos de fora, ouço os passarinhos e a água que corre ao longe, relembrando-me que passa, que tudo purifica, ao mesmo tempo que desvia a atenção das minhas mazelas.

Uma coisa fofa, com pêlo e espinha igual à que tinha escolhido, cai ao meu lado. E aqui fica, imóvel, deixando-me sem saber o que pensar, muito menos o que lhe fazer, se lhe mexo, se a levo comigo, ou se a deixo ali. Opto pela última hipótese, devemos ficar onde pertencemos, naturalmente.

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