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#LivesForever

21/01/2016

David Bowie veio a Lisboa dois meses depois do maior concerto que Portugal já viu, o dos Rolling Stones, o primeiro show em estádio em Portugal, o dos Cure no verão anterior não conta, foi só meio estádio, não fui porque estava em Inglaterra, mas tive pena.

Estávamos em 1990, tinha 18 anos, gostava dos Stones desde os 12 e jamais me passou pela cabeça que viessem a Portugal. Durante meses, antes e depois, não falava noutra coisa. Foi a Urban Jungle Tour, com bonecos insufláveis gigantes no palco, Mick Jagger em grande, um performer de mão cheia, que corria o palco todo, o estádio era dele. No público, 60 mil pessoas, se não me engano, havia três gerações. A minha, a dos 40s e a dos 60s. Estava de tal maneira que uma, que veio a ser minha amiga depois e é-o até hoje, disse: eu quero ver o David Bowie com a Isa. E vimos.

Tentei rever o concerto na RTP Memória aqui há dias, mas não estava disponível, é um serviço público de qualidade, como se vê. Para ver se tinha sido só impressão minha, influenciada pelas minhas hormonas saltitantes.

Tendo como modelo de comparação os Stones e o Mick Jagger, e o impacto que esse concerto me causou, a sensação que tive no concerto de Bowie é que foi fraquinho. Ele estava rouco e o concerto foi curto e simples. Lembro-me perfeitamente de chegar ao palco, aquela figura magrinha, sozinho, a luz apontada para ele, um charme, classudo, cool daqui até à lua. Não precisava de mais nada, era ele e a banda e isso não é para qualquer um. Ele era o show. Acho que fiquei até sem fala. Não me lembro com que música abriu o concerto, mas lembro-me perfeitamente do China Girl, de outros hits e de ter ficado com a sensação de que soube a pouco. Tenho ideia que ele pediu desculpa pela rouquidão… E de isso me impressionar imenso. Era coisa de profissional, mas revelava também muita humildade e muito reconhecimento por quem tinha ali à frente dele, o público, que é quem lhe põe o pão na mesa.

Agora, e mesmo não precisando de rever o concerto, com alguma maturidade e distanciamento, leio-o de outra forma.

Tenho, por vicissitudes da vida, sem no entanto menosprezar ou diminuir, evitado endeusar quem quer que seja, e endemoninhar, já que falamos nisso, não é psiquicamente saudável e ninguém é exclusivamente deus ou demónio. Ter consciência disto não me facilita a vida, mas poupa-me a muitos dissabores. Seja como for, David Bowie viveu, atuou, criou, e partiu para as estrelas, ainda não consigo usar a palavra que começa por M…, como um senhor, com toda a coragem. Foi quem mais e melhor deu voz à galera que mora na cabeça dele, deixando-os expressarem-se e fazer o que tinham para fazer, de uma forma brilhante, artisticamente, na qualidade das composições, na emoção que causam, como qualquer trabalho artístico, falam além da razão, são inclusive mais fortes do que ela, não ofendendo nem agredindo ninguém, mantendo ao mesmo tempo uma postura discreta, que é das qualidades que mais aprecio, e humanista. Basta ouvir o Fame e o Rebel, Rebel, para constatarmos o seu nível de consciência. Não é qualquer um que passa pela fama e se mantém, sem se descaracterizar, sem pôr de lado a qualidade, sem deixar os demónios à solta sem freio, sem se comercializar, sem deixar que o ego insufle demais, sem se perder na autodestruição, que está ali disponível ao virar da esquina, cujos meios para tal lhe são postos debaixo do nariz, nem precisa de estalar os dedos. Também não sei se há um famoso que tenha feito mais duetos do que ele, e todos sabemos o quão pernicioso pode ser o ego, quanto mais o de um artista, que mais e melhor tenha apadrinhado novatos, sem lhes fazer favores, sem os querer usar, não precisava, tendo sempre em mente a qualidade.

Vemos o dueto com Jagger e Mercury, a gritaria destes, eu sou o género que se entusiasma e solta a voz, entendo-os perfeitamente, e Bowie, sempre na dele, sempre impecável, pondo ainda assim a alma em tudo o que fazia. No concerto em Alvalade, ele foi o que sempre foi, ele mesmo. E esse é sempre, sempre o melhor presente que podemos dar a quem gostamos, para quem trabalhamos, com quem vivemos e convivemos.

David Bowie foi o que foi, sem ter medo de ninguém, sem se coibir de viver o que tinha para viver, seja Ziggie, seja bissexual (na fase em que foi, poderia ter arruinado a carreira dele), seja Major Tom seja Starman, seja qualquer das fases pelas quais tenha passado, e, ainda assim, em consciência, sem se autodestruir. Recuso-me a chamar-lhe camaleão, muito menos do Rock, o camaleão adapta-se e mistura-se com a natureza para se proteger, David Bowie assumiu com coragem tudo o que tinha para assumir e que era seu, fosse lá o que fosse.

O melhor legado de David Bowie, para além da música incrível, é esse, a coragem de ser quem é, mesmo que choque o mundo, mesmo que o choque a ele, mesmo que as consequências possam ser devastadoras. Ele sempre garantiu que o que veio cá fazer mantivesse qualidade, tudo o resto, eram coisas da cabeça dele, que, com uma mestria impressionante e fora do comum, transformou em obras de arte musicais que inspiram gerações e gerações. Posso falar pela minha e pela dos filhos dos meus amigos, que, comigo, os pais e “tios” deles, se juntaram a um tributo de músicas e músicas cantadas em conjunto, num apartamento no pacato bairro de Alvalade, no sábado passado.

A sua partida para as estrelas foi coerente com ele, que não prescindia da privacidade, como é que um artista do tamanho dele conseguiu isto é admirável, mostra o respeito que sempre teve, que era um artista de mão cheia, que se despediu da melhor maneira que conseguiu, não se deixando, nem numa altura de tanta fragilidade, influenciar por nada nem por ninguém, e ainda nos deixa um disco de presente, que fica na História pelos melhores motivos e é relembrado assim, em grande, mantendo inclusive a beleza e o charme e isto não é mesmo para qualquer um. Nem consigo achar uma palavra para descrever o que é preciso para fazer uma música como Lazaro e lançar um disco nas condições em que ele estava.

É um tipo que nunca duvidou do seu valor e isso vê-se na forma como nos deixa, discreto, sem deixar que os abutres se aproveitem da sua fragilidade, sem apelar à autocomiseração, à pena. Com uma dignidade incrível, como viveu. Digno, Grande, Enorme. Uma lenda, a mais brilhante das estrelas. E é assim que me hei-de lembrar dele. Inspirador, we could be heros, just for one day, e Lindo.

Bowie,

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